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16/03/2011

Raimundos: Kavookavala

O primeiro disco sem Rodolfo Abrantes

Kavookavala, de 2002, foi o primeiro álbum dos Raimundos sem a presença do Rodolfo. Há quem diga que é o único, por não considerar o álbum virtual (um dos pioneiríssimos no formato, vale dizer) Ponto Qq Coizah. Imagino como deve ter sido difícil para a banda concebê-lo.


Não é tão exagerado afirmar que o Raimundos foi construído à imagem e semelhança do seu vocalista original, dono de uma voz habilidosa e única. Não que o Digão cante mal, pelo contrário, é bem afinado. Mas, o Rodolfo tinha uma habilidade vocal digna de dubladores de desenho animado ou humoristas imitadores. E era essa voz que “contava (e criava) as estorinhas” dos Raimundos desde os tempos dos ensaios com os PR-200 da Ciclotron na garagem do Digão ou na Mad House do Berma.

Para compensar esse desfalque tremendo, o jeito foi recorrer a um antigo parceiro e quase mentor intelectual do Rodolfo nos idos de 1987. O Telo, ex-vocalista do Filhos de Mengele. Co-autor de boa parte das músicas do primeiro álbum e até de algumas do Só no forévis, último álbum com a formação original. Alegria foi feita para a banda relâmpago FM’s Band. Havia laços e entrosamento entre todos ali. 

O resultado foi um álbum muito bem feito tecnicamente e acho até que as mágoas da separação contribuíram para pegada mais raivosa nas músicas pesadas, o que ficou muito bom. No entanto, apesar das letras e dos riffs bem sacados de praxe e da presença de um hit radiofônico potencial, Vento Certo (Água da Mina). O antigo vocalista fez falta e Kavookavala não aconteceu.

Um dos problemas que afetaram esse álbum foi também o fato o seu lançamento ter coincidido com o da estreia solo do Rodolfo. A banda de aleluia coreRodox. E, pra complicar ainda mais, Rodox vinha com status de grande aposta da (mesma) gravadora. Mas, não deixa de ser curioso observar que ambos os trabalhos tinham faixas que poderiam seguir os passos do megahit Mulher de Fases, como Vento Certo (Raimundos) e De uma só vez (Rodox). Juntos, talvez tivessem emplacado as duas.

Um disco importante para que o Raimundos não acabasse por ali mesmo. E, mesmo com seus altos e baixos, é um trabalho que traz a marca de uma banda diferenciada.

RaimundosKavookavala (2002)

1. Fique! Fique! 
2. Crocodilo meio kilo
3. Joey
4. Vento certo (água da mina)
5. Kavookavala
6. El Mariachi
7. Mas vó
8. Princesinha
9. Uabarrêba
10. Atitude severa
11. Pegamutukalá
12. Baixo calão





10/10/2010

Maskavo Roots, 1994


O Maskavo Roots foi formado a partir de uma banda de reggae chamada Cravo Rastafari, no início dos anos 90. Naquele tempo, 9 de cada 10 bandas formadas em Brasília eram punk/hardcore/metal. E o Maskavo foi uma banda que rompeu com o tudo que o rock de Brasília havia produzido de mais relevante até então. Apesar da influência do punk se fazer presente no ska à Sandinista (álbum triplo do The Clash, de 1980) que a banda fazia, o MR trilhou um caminho diferente de seus contemporâneos e suas guitarras distorcidas.

Alguns hits grudentos como Tempestade e Besta Mole foram bastante executados, mas a banda se esfacelou e mudou tanto que nem dá pra dizer que é a mesma. Pinduca ainda formaria o Prot(o), que gravou dois bons cds, e o Marcelo Vourakis passou pelos Cabeloduro, com quem gravou um cd em 2005.

O disco de 1995 é excelente, só que não foi digerido corretamente pelo mercado da época. Espremido entre o forró-core dos Raimundos e o mangue-beat de Recife, ainda teve que disputar espaço com o experimentalismo engraçadinho do Pato Fu. Mas, é um clássico de seu tempo, repleto de composições interessantes, hits assoviáveis e arranjos inteligentes, e que saiu pelo selo Banguela.


Maskavo Roots (1994) Banguela Records

1. Chá Preto
2. Gravidade
3. Tempestade
4. Blond Problem
5. 5°
6. Don Genaro
7. Far Away
8. 45
9. Los Grilos
10. O Corpo(Dance 'til It Drops)
11. Besta Mole
12. Sexta
13. Escotilha
14. D.D.P.
15. Yo No Quiero Trabalhar

BAIXE AQUI

29/08/2010

Os passos de Fred Astaire (atualizado com download em 21/09)

A cada 10 segundos cai um single na internet
E a cada 2 minutos sobe um novo podcast
E
O som do MP3 melhora no K7
No lado A da fita cabe o B do Indietracks...*

Sabem qual é um dos problemas do rock brasileiro de uns tempos pra cá, mais notavelmente no meio independente?
As bandas se levam a sério demais.

Nem falo do lado saudável disso, que é a profissionalização, autogestão da carreira, pois isso é o básico para qualquer profissional liberal que queira viver de seu ofício.

É que muitas bandas parecem se esconder atrás de uma relevância musical ou poética que, honestamente, não existe, nem existirá. E tampouco há problema nisso. Música pop é entretenimento, erudição tem que ser buscada na literatura ou em gêneros musicais mais sofisticados como o jazz ou choro.

Agora surgiu uma história de se tratar rock como uma ciência exata e de acreditar que há indie-cientistas que professam esse conhecimento. Conversa mole, besteira das grandes.

O rock se popularizou porque foi a expressão musical mais simples - no sentido de requerer pouco conhecimento musical teórico - que o jovem humano encontrou pra contar suas histórias ou embalar as suas festas. Hoje, pouco se percebe desse ímpeto juvenil desafiador original. As bandas parecem feitas sob medida para agradar sexagenários.

Ok, as pessoas crescem. Mas, Fred Astaire, segundo álbum do agora trio brasiliense Lucy and the Popsonics é prova de que é possível amadurecer sem perder a ousadia (nem a ternura). O disco é um chute de bico na caretice do existencialismo indie de mesa de boteco.

A produção impecável de John Ulhôa (Pato Fu) é só a cereja do bolo. Neste segundo trabalho, a banda mantém o humor característico, a ironia provocadora e o singular contraste entre a meiga voz de Fernanda e a poderosa parede de guitarras de Pil. Mas, tudo está mais encorpado, com jeito de banda grande. Não foi à toa que um baterista "humano" (Beto Cavani, ex-Suíte Super Luxo) foi convocado para ajudar a eletrônica Lucy, e reforçar essa pegada nas apresentações ao vivo. John também participa com programações e guitarras em quase todas as faixas.

Difícil destacar um ponto alto em um trabalho tão bem amarrado. Multitarefa, faixa de abertura, é uma música que o Devo poderia ter feito na semana passada. Popdoll Killer tem passagens que remetem ao Dead Kennedys psicodélico do disco Frankenchrist. As letras continuam espertas e ainda tratam do cotidiano com um sarcasmo bem dosado. Os questionamentos mudaram um pouco. As críticas aos modismos adolescentes presentes no primeiro disco, como Garota Rock Inglês, deram lugar a versos como: eu gostaria que a vida fosse lenta/Sobraria um tempo pro meu imposto de renda” ou “Vivo numa maquete/Me sinto um rato branco. Sou um experimento/Trabalho em um banco. As horas me oprimem/O elevador comprime e o digital distrai, que revelam uma angústia urbana mais adulta. Há também um improvável cover do Sepultura (Refuse/resist, do Chaos A.D.).
Fernanda, Pil e o 3º elemento, Beto Cavani
(foto: Nicolas Gomes)

Um disco para se ouvir no volume máximo e com um sorriso estampado logo a partir da primeira faixa. Afinal de contas, não é pra isso que serve esse tal de rock’n’roll?

... Camisa xadrez abotoada no pescoço
Suéter no calor e óculos de aro grosso


As melhores bandas são as de abertura
A cena mais bacana é indie-folk da Albânia...

Biff bang, Biff pop
Biff bang, Bang pop*




Lucy and the Popsonics - Fred Astaire (2010)


1. Multitarefa
2. Biff bang pop
3. Popdollkiller
4. Fred Astaire
5. Refuse/resist
6. Por que você não morre?
7. Ziggy
8. A síndrome das perna inquietas
9. Eu vou casar com um cosmonauta
10. Oito bits


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CD físico: http://www.monstrodiscos.com.br/loja/

*Versos da música Biff bang pop

12/07/2010

1993: A vez do Brasil


Antes de gravar primeiro álbum, o Little Quail, ao lado de Graforréia Xilarmônica, Neanderthal, Pitbulls on Crack e Rip Monsters, participou de uma coletânea da rádio paulistana 89 FM chamada A Vez do Brasil. Esse álbum rendeu o clipe de 1, 2, 3, 4 e abriu as portas da MTV para o LQ.

Abaixo, a banda participa do programa Gás Total, apresentado pelo Gastão Moreira nos idos de 93. Tem um momento histórico que é quando o Zé Ovo dá um tapa no saco do Gastão no fim da entrevista.



07/06/2010

R64 Brasil: Doe rock ao Emocentro

Outro dia estava pensando sobre a tal fórmula do sucesso. Não a fórmula industrial, mas a fórmula original. Digo isso, porque a fórmula industrial nada mais é do que uma tentativa de reprodução de uma fórmula original que tenha dado certo.

Exemplos? As inúmeras bandas pós-Legião Urbana, cujo cardápio de genéricos inclui bandas de um hit só, como Uns e Outros, e outras que são sucesso gospel como o Catedral. Mas, essa prática não é exclusiva da indústria fonográfica caduca.

Também posso citar a cena indie dos anos 00s que, ao meu ver, foi de longe a década menos criativa do rock brasileiro. Tirando uma ou outra exceção, as bandas da década passada se contentavam em fazer releituras toscas de dois álbuns: Is this it, dos Strokes e Ventura, do Los Hermanos.

Afinal, o que difere uma banda competente de uma banda de sucesso? A resposta é bem simples - o que, diga-se, de forma alguma significa que se trata de algo fácil. O segredo é conseguir falar com todos. Falar a língua que todos entendem. É falar de um João de Santo Cristo trabalhando em Taguatinga e o sujeito lá no Acre entender perfeitamente. É cantar aventuras em puteiros de João Pessoa e lá em Curitiba, o cara acompanhar. É entrar em uma Brasília amarela rumo a Santos e o manauara embarcar junto....

Doe rock ao Emocentro, da Sociedade Bico de Luz é um álbum sensacional por isso. Com uma produção bem cuidada, traz 9 hits certeiros, entre as 12 faixas do álbum. A música de abertura, Centro de Porto Alegre, poderia se chamar Centro de São Paulo, Centro de Manaus ou de qualquer outra capital do Brasil. Também não é preciso ser um gaudério para mergulhar nas memórias adolescentes de Excursões para Expointer. E quantas Musas do T2 (cuja letra fala de uma paixão platônica surgida dentro de um coletivo, T2 é uma linha de ônibus) já não despertaram emoções pelos busões da vida?

Banda segura do que faz, a SBL tem um carisma incomum entre bandas independentes. Muito disso se deve ao sarcasmo contundente (mas sem apelações) presente no disco. Claro, é também uma banda musicalmente muito competente, com um instrumental potente e afiado, um ótimo vocalista e backing bem encaixados.... Vale destacar que a última faixa do disco (Eu tenho uma banda que quer ser Strokes) é quase um epitáfio para os modorrentos Anos 00.

Um disco que abre uma nova década para o hoje moribundo e tedioso rock nacional.

Sociedade Bico de Luz – Doe rock ao Emocentro

1. Centro de Porto Alegre
2. O nosso amor é rock
3. A musa do T2
4. Domingo em Porto Alegre
5. É TPM
6. Ela se acha
7. Excursões para Expointer
8. Julho
9. Meu bem
10. Mundo bom
11. Suplementos alimentares
12. Eu tenho uma banda que quer ser Strokes

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03/05/2010

Coletânea dez


Hoje é o dia da décima coletânea do blog e a primeira de 2010. É a primeira em que incluí bandas de outro estado. Entre as participantes, temos bandas realmente iniciantes (Ex-Ternos, Vitrine, Electrodomesticks e Meias Descoloridas), bandas que já vêm conquistando espaço nacionalmente (Velhos e Usados e Cassino Supernova), duas convidadas especiais que representam o novo rock grande do sul (Sociedade Bico de Luz e Empíricos) e um bônus especialíssimo com a versão dub que os saudosos Bois de Gerião fizeram de Shit bomb, da noventista Oz.

Baixem e conheçam algumas das bandas mais interessantes da cena independente nacional.

Coletânea Rock Brasília, desde 1964

1. Ex-Ternos – Duas noites embaladas
2. Empíricos – Durma cedo
3. Cassino Supernova – Última Sketch
4. Vitrine – As bandeiras
5. Sociedade Bico de Luz – Ela se acha
6. Electrodomesticks – Nous voulons voir
7. Velhos e Usados – Indivíduo
8. Meias Descoloridas – Samba da perda
9. Bônus: Bois de Gerião – Shit bomb

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E uma boa semana para todos!

16/02/2010

90s: O rock futurista da Divine

por Carlos Pinduca*

Logo que comecei a escrever o Pinduca's blog, em meados de 2009, postei um texto apontando o disco Órfãos da Nação, da banda crossover BSB-H, como elo entre o rock brasiliense dos anos 19801990. No final daquela postagem, revelava que, para mim, a ponte entre as gerações brasilienses seguintes (90's e 00's) era a banda Divine.


Este texto, portanto, vem pagar a dívida deixada com os leitores.

Surgido em 1992, com o nome de Ultraviolet, o grupo começou a partir de uma colaboração de músicos das bandas Oz e Low Dream com o, à época, estudante de História e editor do fanzine Heaven, Cláudio Bull. Depois de um episódio que se tornou uma espécie de clássico da cena independente brasiliense, em que os músicos foram assaltados dentro de um estúdio na Asa Norte, a banda deu uma parada e acabou só tomando corpo mesmo em 1993, já com integrantes “próprios”: o baterista Marcius Fabiani, o baixista Daniel Luna e os irmãos guitarristas Wilton e Wagner Rossi (este último trocaria a guitarra pelo baixo posteriormente), além do vocalista e letrista Cláudio Bull. A mudança na formação também trouxe um novo nome: agora, o grupo se chamava Divine’s Men (depois, passou a ser somente Divine) numa referência ao ator norte americano Harris Milstead (1945-1988), mais conhecido por sua persona drag queen Divine.

Foi mais ou menos em 1993 que eu conheci o vocalista Cláudio Bull. Cursávamos – também com o baterista Marcius Fabiani - a disciplina Estética e Cultura de Massa, na Faculdade de Comunicação da UnB, e começamos a trocar algumas idéias sobre música. Já nas primeiras conversas deu para sacar que o Cláudio conhecia muita coisa tanto dos clássicos quanto das últimas novidades do rock e do pop. Como ele era um pouco mais velho e sempre teve a verve de colecionador de discos e revistas, sua casa acabou se tornando ponto de encontro de muitas gerações de roqueiros brasilienses para se escutar e falar sobre música.

Muito do que se encontra no som e na postura da Divine está ligado a essa visão ampla da cena musical do líder Cláudio Bull, derivada do seu lado fanzineiro e historiador. Neste ponto, é interessante notar como a banda sempre lutou pela construção de uma cena local, seja organizando shows e festivais ou mesmo trocando informações com grupos de outros estados. Paradoxalmente a essa noção de coletivo, a própria carreira da Divine acabou sendo construída de uma maneira quase solitária (inclusive, no que diz respeito à formação de um público), sem se associar exatamente a nenhum grupo ou estilo.

Logo que a banda lançou sua primeira demotape (Portfolio), em 1994, lembro de o Cláudio Bull rejeitar veementemente os conceitos de brodagem e podreira, tão em voga no rock brasileiro dos anos 90. Ao mesmo tempo, a banda que começou com a colaboração de membros dos Oz e Low Dream também deixou logo para trás o lado estrangeirista das guitar bands para escrever letras em português e tratar de temas como sincretismo religioso e sexualidade, com diversas referências à cultura brasileira. Na segunda metade da década de 90, quando diversos músicos da cena alternativa brasiliense resolveram trocar as guitarras pelas picapes, a Divine buscou mesclar as linguagens roqueira e eletrônica em uma terceira via. Essa fusão sonora está bem explícita no primeiro disco da banda - link pra download no fim da postagem - lançado em 98, que conta com a produção do mineiro Paulo Beto, oriundo da escola eletrônica.

Na própria construção das canções, a Divine – cuja formação clássica, a partir do final de 1997, contava com Cláudio Bull (vocal e letras),Wilton Rossi (guitarra), Zeca (baixo) e Thiago Bouza (bateria) - também tinha um estilo bem peculiar de compor: enquanto o guitarrista canhoto Wilton Rossi usava seu background roqueiro para misturar riffs setentistas com dedilhados oitentistas, o vocalista Cláudio Bull encaixava suas letras de cunho literário, histórico e antropológico – frutos de uma forte influência de Caetano Veloso, Fellini, David Bowie e krautrock – dentro de melodias quase cerebrais. Somando a esse núcleo, entrava a bateria quebrada, esporrenta e visceral de Thiago Bouza e o baixo pulsante de Zeca (ex-Animais dos Espelhos e Câmbio Negro). Em sua última formação, a banda ainda contou com o teclado de Gustavo Cochlar (ex-Chantilly e também DJ). Se a falta de uma educação musical mais formal fazia o próprio vocal de Bull fugir algumas vezes do tom, essa espécie de carência parecia suplantada pela força das canções e a coesão da banda.

A permanência do Divine – e seu estilo meio indefinido, com toques de glam rock, punk, eletrônica e indie rock – na cena roqueira até 2002, ano de sua dissolução, fez com que a banda se tornasse uma espécie de ponte entre o rock brasiliense dos anos 90 e 2000. Se olhamos para o final da década de 90 em Brasília, o que se vê é um cenário roqueiro repleto de bandas de hardcore ou buscando um regionalismo forçado (para imitar Raimundos e Chico Science), com os músicos indies migrando para a música eletrônica. A Divine, apesar de conservar parte da linguagem indie dos 90’s,trazia muito da informação que nos anos 2000 seria bem mais comum: um rock urbano e moderno com sotaque brasileiro, sem precisar recorrer a misturebas sonoras ou regionalismos, sem rivalizar ou se entregar para a música eletrônica.

Por conta dessa admiração e amizade com o Cláudio e os demais membros da Divine, tive a oportunidade de produzir – não muito bem, por sinal – uma demo da banda em 1995 (¡Los Chicos No Quiziéron!). Além disso, cheguei a regravar duas músicas deles com o Prot(o): Spacepop 2, na demo “Prot(o) ao Vivo”, quando este ainda era um projeto solo, em 1997, e A Rainha das Garotas Más, no segundo disco do Prot(o), como banda, em 2006. Além disso, nós, do Prot(o), dividimos com a Divine vários shows e até uma mini turnê em São Paulo, em 2000 (que ainda contou com os goianos MQN e Motherfish). O que sempre imperou na relação das duas bandas foi um senso de respeito e cooperação.

Com o fim da Divine, a dupla Cláudio e Wilton, acompanhada pelo produtor, tecladista e cineasta Zepedro Gollo, montou um outro projeto, chamado Superquadra, cujas letras misturam um olhar contemplativo com visões ácidas sobre a arquitetura e o estilo de vida dos brasilienses. Com um pé ainda mais fincado em bases eletrônicas e espaciais, menos peso nas guitarras e uma batida mais cadenciada, o Superquadra acabou levando à frente – e até evoluindo em alguns sentidos - muito da sonoridade legada pela Divine. Em 2006, o Superquadra lançou o seu primeiro disco, Tropicalismo Minimal, eleito o melhor álbum brasileiro de rock e pop daquele ano pelo jornal Correio Braziliense. Longe de significar apenas a valorização ao momento inspirado do Superquadra, o alto do pódio na eleição do Correio veio valorizar o trabalho de mais de uma década de um grupo de músicos que, apoiado em diversas referências do passado, sempre apostou no futuro.


Divine – Divine (1998)

1. Número Um
2. Spacepop
3. A rainha das garotas más
4. Zé Pilintra rasga o verbo
5. Uns restos de ressaca deram uns tombos na madrugada
6. Santo Antônio do Descoberto
7. Sobre um oceano
8. Cartas para Thor
9. Lâmina azulada
10. Exubeat
11. Batum-hum

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* Pinduca foi integrante do Maskavo Roots e Prot(o), e edita o Pinduca's blog, onde o texto foi originalmente publicado e onde é possível baixar também os demais trabalhos da banda..

17/01/2010

Zeros que vão, Dez que chegam


Aos poucos a rotina vai retornando à normalidade. E para retomar minhas postagens, resolvi homenagear a década que chegou ao fim, preparei uma coletânea com aquelas que considero as 15 melhores músicas do rock brasiliense nos anos 00.

São bandas de todos os estilos, algumas já terminaram, outras estão em franca atividade.  Não é possível agradar a todos, não há dúvida, mas fiz um esforço para chegar a uma coletânea equilibrada, que ilustre principalmente a diversidade do rock de Brasília. O álbum virtual traz as músicas em ordem decrescente, ou seja, começa com a 15ª e termina com a primeira. Mais à frente, publicarei o TOP 15 de álbuns.

Abaixo, as faixas comentadas

Rock Brasília, desde 1964 - Top 15, Anos 2000 - Músicas

15 –  Candidato – Cadabra
Pauleira, boa letra sobre um tema bem importante em ano eleitoral.

14 – Não me bata mais com essa corrente – ASKeS
Punk rock meio brega, bateria na pressão, uma parede de guitarra e bons vocais.


13 – Mc Maldade – Macakongs 2099
Só o verso: “Matadouro fast food, é o câncer sabor hamburger”, já dispensa maiores explicações.


12 – Keep Cooler – Nancy
Nancy. Uma banda peculiar, vanguarda na contramão dos “sons do momento”.


11 – A morte da Super Modelo – Capotones
O produção do primeiro CD do Capotones enquadrou a banda numa sonoridade billy certinha, limpinha, de guitarrinhas estreladas e blá, blá, blá. Só que o Capotones  sempre foi mais do que isso. Essa música, do último cd da banda, retrata bem como foi uma das melhores bandas da década.


10 – 2,3 baladas – Superquadra
Superquadra é uma banda que mostrou ser possível ter cérebro e fazer rock de pista.


09 – Parem de rir de mim – Galinha Preta
Uma convulsão em velocidade burlesca. 40 segundos de uma pauleira genial.


08 – (we’re better) Out of control – Enema Noise
Banda da novíssima geração, descobri no segundo semestre de 2009. Se o Nancy é vanguarda na contramão do som do momento, Enema Noise é  a vanguarda off road.


07 –Urso Panda – Gonorants
Uma canção de Brasília.


06 – Jeans – Velhos e Usados
Velhos e Usados.  Um hit pop honesto de arranjos impecáveis,  como todo o álbum Híbrido.


05 – Piolho – Gilbertos Come Bacon
Guitarras, metais e percussão. Outra banda que trabalha arranjos mais elaborados. Letra esperta sobre parasitas.


04 – Coração Empacotado – Lucy and the Popsonics
Um sucesso impagável. Diversão, joysticks, PCs e punk rock.


03 – Perca Peso – Móveis Coloniais de Acaju
Apesar do C_mpl_te ter sido quase uma unanimidade nas listas de Top do ano passado. Pra mim, Perca Peso, do Idem, foi a melhor música deles.


02 – Onde os porcos pastam longe de mim – Prot(o)
Difícil escolher uma música do Prot(o), uma banda com um bom número de músicas no mesmo (alto) nível. Pra mim, essa é a que sintetiza melhor  o que foi o Prot(o)


01 – Heartcore (Merthiolate Hamlet) – Suíte Super Luxo
Bom, essa música é excepcional. Pra mim, o Suíte Super Luxo foi a melhor banda da década. À frente do Móveis, a consagrada pelo público e do Prot(o), a consagrada pela crítica especializada. O disco Que vença el Toro é um primor, reúne as melhores influências possíveis e uma certeza autoral que poucas bandas conseguem sustentar logo na estréia. Essa música é a “Paranoid Android” do rock brasiliense.

03/12/2009

Tonton Macoute – O bicho papão do rock de Brasília


por Daniel Cariello*

De vez em quando surge uma banda em que todo mundo aposta. É ouvida, comentada, os shows são legais e elogiados. Mas, por alguma tramóia do destino, acaba não dando certo. Os anos 80 produziram pelo menos duas clássicas na capital: o Escola de Escândalo e o Tonton Macoute.

A história da primeira é bem conhecida por quem acompanha o rock candango. Só pra dar uma situada básica, vale dizer que em 1987 o grupo assinou com a EMI e gravou uma demo produzida pelo plebeu Philippe Seabra. Mas, por motivos diversos, nunca conseguiram lançar o esperado disco de estréia. E o grupo acabou antes do fim da década.

O Tonton Macoute é o outro da safra. O nome foi roubado da polícia repressora do Haiti, no governo Papa Doc, e significa bicho papão, em francês. A formação inicial tinha o vocalista/letrista Cau, a tecladista/backin´ vocal Cláudia, o trompetista Flama e o baixista Maurício. Cadê a guitarra? Não tinha. O quarteto era completado por uma (hoje) arcaica bateria eletrônica.

Drum’n’bass nos anos 80? Hein?


A primeira demo mostrava que, em épocas de Legião, Capital e Plebe no auge, tinha gente na cidade disposta a fazer música diferente. Completamente diferente. O som eletrônico tinha vocais em português, inglês e alemão, muito mais recitados do que cantados, teclados inspirados por grupos como Ranaissance, baixo preciso e o incrível trompete. Isso tudo fazia da banda a única do gênero. Aliás, que gênero? Não dava pra classificar.

E muito antes do Rotomusic de Liquidificapum, o 1º disco do Pato Fu, as programações da bateria Roland do Tonton já chamavam a atenção. Animais, uma das primeiras composições, era praticamente um drum´n´bass. E A Pele era algo como um acid jazz. Isso em 1986.

A fita demo do grupo foi parar nas mãos da Fluminense FM, uma conhecida rádio de vanguarda do Rio. Pra vocês terem uma idéia, foi a mesma rádio que tocou Legião Urbana antes de todo mundo. As músicas Electric Light e A Pele ficaram, respectivamente, em 1º e 2º lugar durante um bom tempo.

Quando a banda começava a decolar, o trompetista Flama decidiu tentar vôos maiores. Saiu pra tocar em uma orquestra no Rio de Janeiro. E logo depois o baixista Maurício saiu também.

Tempo de reformulações
Entra Sérgio Couto, percussionista do Obina Shock, histórico grupo de Brasília que estourou nacionalmente com a música Vida. Abre parênteses. A estréia do Obina em vinil, com músicas em português, francês, inglês e dialetos africanos, influenciou diretamente os Paralamas a compor o disco Selvagem?. Fecha parênteses. Entra também o baixista Dedé, egresso da banda Fama. Volta Maurício.

Com novos membros e dois baixistas, um tocando eventual guitarra, o agora quinteto buscou um caminho um pouco mais pop. Mas isso não significou perda de qualidade. Mesmo sem Flama, o som continuava original. A segunda demo, com músicas como A Bruxinha e Mr. DeJohnette, uma homenagem ao baterista de jazz Jack DeJohnette, era tão boa quanto a primeira.

Mas o tempo foi passando e as expectativas de gravação de um disco foram por água abaixo quando Collor assumiu a presidência e cortou as verbas da cultura. Um tempo de trevas para os artistas brasileiros. E os primeiros que dançaram foram os que não se enquadravam no duvidoso gosto do ex-presidente.

Sem perspectivas, o grupo acabou. Cláudia e Sérgio Couto casaram-se e foram pra Varsóvia. Cau se mandou pro Rio. E assim terminou uma das mais criativas e originais bandas da história da cidade, avançada pra época e até hoje atual. Duvida? Baixe agora a copilação das duas demos da banda e tire suas próprias conclusões. (versão completa, atualizada em 4/12)
 *Daniel Cariello edita a revista Brazuca e o blog Chéri à Paris

Tonton Macoute (Demos, 1986-1987)

1. Intro
2. Electric night
3. A pele
4. O circo I
5.  A casa
6. O sino
7. Ruas I
8. Animais
9. O circo II
10. Mr. deJohnette
11. A bruxinha
12. Vigília
13. Ruídos
14. Ruas II


11/11/2009

Pokemóns e Punk Rock


Conheci o Lucy and the Popsonics meio por acaso, era um evento que não me lembro o nome, lá pelos idos de 2004 ou 2005. O punk rock eletrônico, que me pareceu um crossover de temas de seriado japonês e trilha sonora de video games de 16 bit, e o carisma do casalzinho, que inclusive trocava bitocas durante o show, chamou a minha atenção na hora. Ficou claro, pelo menos pra mim, que o que estava vendo era uma banda diferenciada. Pouco tempo depois, o hit Coração Empacotado começou a ecoar por aí.

Se há algo imprescindível para uma banda soar, ao menos, honesta é ela conseguir transmitir um tesão verdadeiro por aquilo que faz. É a banda ou artista conseguir demonstrar a fé e a entrega à sua música ou arte. Veja que isso não é o mesmo que “pose” pura e simples, tampouco isso se garante coreografando caras e caretas ou se fantasiando como faz, por exemplo, a gaúcha Cachorro Grande. É mais. É levar cartão vermelho por se atirar em cima de uma bateria montada no palco, como fez a Fernanda Popsonic em um "festival de rock de empresa de telefonia" aqui em Brasília, este ano. Depois disso, a produção encerrou a apresentação do casal. Lindo isso. Ser expulso do palco pela produção é um sonho secreto de toda banda de rock de verdade. É claro que os extremistas do rock pesado não engolem os dois pokemóns e suas programações eletrônicas como punk rock. Fazer o quê....

O álbum de estréia, A Fábula (ou farsa) de dois Eletropandas, de 2007, é muito bom. E o mais interessante é que ao longo das oito faixas não se percebe nada que pudesse ter sido feito por outra banda. Tudo tem muita identidade, do humor peculiar ao espírito meio nerd que transparece nas canções. As letras beiram o inacreditável com versos sensacionais como O que que você acha, amor/De lápis com borracha/Se eu erro você me apaga/Se eu sumir você me acha (Eu quero ser seu Tamagotchi) ou Garota Rock Inglês não maltrate dessa vez/O meu coração que só fala português/Com seu jeito esnobe que me lembra um burguês/Eu não leio Byron, nem escuto Coldplay (Garota Rock Inglês) ou ainda, Microscópio rarefeito /situado no seu peito/Amplifica o sinal da TV/Bicicleta da família/E o porquinho da Emília/Querem torturar o Pinochet (Estetoscópio).

Diversão garantida, agora disponível para os leitores do RockBsb64.

Lucy and the Popsonics – A fábula (ou farsa) de dois Eletropandas (Monstro Discos, 2007)

1. Garota Rock Inglês
2. Estetoscópio
3. Coração Empacotado
4. Meu gatinho Chernobyl
5. Chanson Française
6. Fashion bloody Fashion
7. Eu quero ser seu tamagotchi
8. Chick chick boom

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26/10/2009

+ de 5.000 downloads!



Desde a publicação do show do Little Quail no Porão do Rock 2009 percebi uma turbinada geral nos downloads do blog. Eles ultrapassaram a marca de 5.000 baixadas. Muito bom!

Dando prosseguimento à série de coletâneas das bandas brasilienses desta década, aí vai a segunda, espero que curtam. Novas coletâneas serão publicadas até dezembro.

Coletânea Rock Brasília, desde 1964

1. Enema Noise - (we're better) Out of Control
2. Gonorant$ - Marciana
3. ASKeS - Carro Novo
4. Lucy and the Popsonics - Estetoscópio
5. Os~ - O conselheiro
6. Quebraqueixo - Jura de morte
7. Pulso - NDA
8. Cadabra - Adoração e plástico
9. Satanique Samba Trio - Deus odeia samba rock
10. Sons de Quarto - Vomita Tripa
11. Suíte Super Luxo - Heartcore (merthiolate hamlet)
12. Prot(o) - Eletroacústica
13. Meias Descoloridas - Amor espacial
14. Velhos e Usados - Reflexões Voláteis (ao vivo)

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Uma boa semana para todos!



04/10/2009

Capotas e Focas



As bandas Gramofocas e Capotones lançaram seus primeiros álbuns pelo mesmo selo, o brasiliense Prótons. Foram duas bandas que protagonizaram a cena billy na primeira metade da década 00.

O Capotones, como já falei por aqui, foi disparado a melhor banda desse segmento surgida após o Little Quail. O Gramofocas, que ainda existe, foi uma espécie de Jonas Brothers do underground, vendeu bastante discos (pros padrões independentes de hoje, diga-se) e seus shows eram sempre cheinhos. Musicalmente era uma banda de punk'a'billy bem simplória e limitada, e que nunca agradou aos meus ouvidos. No entanto, reconheço que era boa de palco e tinha carisma e pose para fotos.

O segundo álbum das duas bandas foi o split Gang Bang, que saiu em 2008 pelo selo 53HC, de Belo Horizonte, e que agora disponibilizo aqui para download. No vídeo acima, um clipe de uma jam acústica das duas bandas, feito durante a gravação do split. No medley, Misfits e Johnny Cash.

 Gang Bang - Capotones e Gramofocas (2008)




01 - Gramofocas - Ela Só Pensa Em Apanhar
02 - Gramofocas - Parati Surf
03 - Gramofocas - Sarah é Uma Sado
04 - Gramofocas - Loira De Tranças
05 - Gramofocas - Nâo De Drogas Pro Thiago
06 - Gramofocas - De Drogas Pro Gordinho
07 - Gramofocas - Ultima Onda
08 - Gramofocas - As Sete Vampiras
09 - Capotones - Nekropolis
10 - Capotones - Gospel
11 - Capotones - Baby Você Não Tem Pudor
12 - Capotones - Bebado Fácil
13 - Capotones - 53043
14 - Capotones - Café E Pilulas
15 - Capotones - Morte Da Super Modelo
16 - Capotones - Cigarrette

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Uma boa semana para todos!

21/09/2009

Pra baixar: Little Quail no Porão do Rock 2009

Zé Ovo bate as asas em Brasília novamente

 .
Pois é, preparei uma surpresa pros leitores do Rock Brasília, desde 1964. É que estou disponibilizando o show do Little Quail and the Mad Birds que rolou no domingo (20), dia dedicado ao Rock Brasília no Porão do Rock 2009.

Pra quem não conseguiu ir e nem ouvir pela net, está aí o show que foi considerado o melhor do festival por muita gente. É importante lembrar também, que este show apresentou o LQ para muita gente da nova geração, que podem também baixar por aqui, o primeiro e o segundo álbum, além do EP. Curtam aí!

Little Quail and the Mad Birds - Ao vivo no Porão do Rock 2009

1. 1,2,3,4
2. Berma is a Monster
3. Samba do Arnesto
4. Baby Now
5. Mamma Mia
6. Me espera um pouco
7. Mau-mau
8. A alegria está contagiando o meu coração
9. Conversa
10. O sol eu não sei
11. Família que briga unida, permanece unida
12. Essa menina
13. Aquela
14. Conversa
15. Dezesseis
16. Azarar na W3
17. Umbabarauma
18. Conversa
19. Galera do fundão
20. Cigarette

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05/09/2009

Muito além da preguiça

Venho percebendo já há algum tempo que o revival inconsciente da vez parece ser o dos anos 90. Tenho recebido material de bandas do Brasil inteiro e não são poucas as que fogem do padrão indie-cabeça(oca)-hermanos-strokes, onde reina a absoluta falta de criatividade e que há muito já encheu o saco. E os 90’s não se resumem ao grunge, nome que a mídia escolheu para batizar rock feito na cidade de Seattle desde os anos 80 e que estourou mundialmente no início da década seguinte.

Ninguém é obrigado a concordar, mas hoje fica claro para mim que o grande momento da história do rock norte-americano foi nesse período (1982-1992). Foi uma época em que bandas como Dead Kennedys, Beastie Boys, Rage Against the Machine, Sonic Youth, Pixies, Smashing Pumpkins e Nirvana (só pra citar as mais famosas) mostraram que haviam aprendido melhor que os europeus as lições do Punk. Experimentações e elementos inusitados ou inéditos eram trazidos para o rock sem que se perdesse o punch, a pegada característica do estilo.

Não que essas bandas não fizessem também o rock de canções. Até os ícones punks do Dead Kennedys têm a sua Moon over Marin. E outras têm tantos outros hits de pista. Se o punk trouxe o rock de volta para o caminho certo, essas bandas citadas acima mostraram que não era preciso seguir caminho algum, que era possível fazer o seu próprio.

E essa influência é clara em uma das melhores bandas que escutei recentemete, a brasiliense Enema Noise. Uma banda sem a preguiça criativa que é quase regra atualmente.

O Enema Noise surgiu de um projeto solo experimental de 2005. Somente em 2009 passou a ser uma banda de fato, formada por Lamin: voz e guitarra, F. Raupp: baixo e synth, Marcelo Melo: bateria e Murilo Barros: guitarra. Algo de Pixies e Dinossaur Jr está presente no som deles, o que de certa forma remete à falecida Oz.

É uma banda que traz esse lado meio esquecido dos anos 90, mas de forma alguma soa datada. A música eletrônica está presente na medida certa ao lado de guitarras rasgadas e vocais (em inglês) com efeitos bem ajustados. Uma banda bem nova, que lançou apenas um split (dividido com a carioca The Fraktal) com duas músicas e teve uma participação em um tributo aos gaúchos do De Falla. Mas, apesar disso, o Enema Noise estréia bem decidido em sua sonoridade, que está a quilômetros de distância do padrão cópia-de-cópia-de-cópia que infesta o rock independente brasileiro.

Espero que o LP cheio confirme as promessas mostradas neste EP, agora disponibilizado para os leitores do RockBsb64.

Enema Noise e The Fraktal – Splt EP

1. Enema Noise – (we’re better) Out of control
2. Enema Noise – Dangeous Desire
3. The Fraktal – The runaway things from one of my dreams
4. The Fraktal – This vaccine

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27/08/2009

Ctrl C Ctrl V: A profundidade de ‘1,2,3,4’

por Carlos Pinduca*

A primeira vez que ouvi falar do Little Quail and the Mad Birds – banda brasiliense formada em 1988 por Gabriel (voz e guitarra), Zé Ovo (baixo) e Berma (bateria - logo substituído por Bacalhau) – foi em meados de 1990, por meio dos meus colegas do Conexão Brasília, banda de colégio de onde saíram três membros da formação original do Natiruts e dois do Maskavo Roots. O Conexão tinha tocado nas eliminatórias do Festival Interno do Colégio Objetivo (FICO) – em grau de importância para a gente na época, uma espécie de Rock in Rio - e seus membros voltaram falando de uma banda ridícula e esquisita que tocava uma música também ridícula e esquisita chamada 1,2,3,4. O pior é que, assim como o Conexão, eles tinham passado para a grande final do festival, que se realizaria no Ginásio Nilson Nelson, com show de encerramento do Barão Vermelho.

Se não fui às seletivas, acabei comparecendo à final do FICO, para engrossar o coro de torcedores do Conexão. Além de assistir aos meus colegas de colégio, fiquei curioso também para ver a banda ridícula tanto falada, o tal Little Quail. Mas os concorrentes foram passando e nem sinal deles: ou tinham tocado antes de eu chegar ou simplesmente não deram bola e “mataram” o festival. Posso estar confundindo as histórias, mas anos mais tarde fiquei sabendo que eles não foram à final do FICO porque estavam trazendo para Brasília naquela noite o Missionários, banda seminal de psychobilly de Curitiba.

De qualquer forma, só consegui assistir de fato ao Little Quail tardiamente, já no final de 1991, em um show no KG Bar, boteco instalado por pouco tempo nos fundos do então badalado Centro Comercial Gilberto Salomão. Fiquei de cara com a banda: eles eram afiados no palco e contavam com um público fiel – tudo isso em cima de um repertório próprio que fugia ao senso comum da época.

Neste ponto, vale explicar um pouco o contexto daquele final dos anos 80 e iniciozinho dos 90: o que preponderava era o rock com letras politizadas e forte apelo poético, fruto de uma forte influência renatorussiana. Algumas bandas, como De Falla, Kães Vadius e Cascaveletes, já fugiam desse padrão, mas o que estourava nas paradas era mesmo Paralamas, Barão, Titãs e Legião Urbana e seus seguidores, como os cariocas do Uns e Outros, por exemplo.

E mesmo se considerássemos o Little Quail dentro de um pacote de bandas mais debochadas, digamos assim, como Ultraje a Rigor ou os chatos e bombados à época Inimigos do Rei, dava para notar que a banda de Brasília já rumava por um caminho mais radical. Um belo exemplo desse radicalismo é a música 1,2,3,4, cuja letra se limita simplesmente a contar os quatro primeiros números cardinais, de forma nonsense e excessivamente minimalista, sobre uma base musical mezzo rockabilly mezzo punk rock.

Em Brasília, as canções inusitadas e criativas do Little Quail – Família que Briga Unida Permanece Unida, Azarar na W3, Essa Menina, Aquela e 1,2,3,4, entre outras – tornavam-se cada vez mais conhecidas, sempre dividindo a opinião do público sobre o seu conteúdo pretensamente bobo. No entanto, bastava uma olhada mais atenta para notar que ali não existia nada de ingênuo. Pelo contrário, o que havia era uma fina ironia, uma propositada infantilidade com clara intenção de nadar contra a maré do que era considerado sério por parte do público e crítica.

Nesse sentido, vale ainda chamar a atenção para o pioneirismo do Little Quail dentro da cena musical brasiliense dos anos 90. Eles foram os primeiros da sua geração a fazer intercâmbio com bandas e jornalistas de outras cidades. Também foram uma das primeiras bandas da capital – ao lado dos grupos de Metal – a lançar e comercializar sua já clássica fita demo, em meados de 92. Essa atitude sempre profissional levou o Little Quail a integrar a coletânea A Vez do Brasil, lançada pela gravadora paulista Eldorado no ano de 1993, o que fez com que suas músicas fossem incluídas na programação de diversas rádios pelo Brasil. No final deste mesmo ano, numa clara trajetória ascendente, a música 1,2,3,4 chegou a ser considerada, junto com Haiti (de Caetano e Gil), como a melhor canção de 1993 pela revista Bizz.

Em 1994, o Little Quail finalmente lançou o seu aguardado primeiro disco, Lírou Quêiol en de Méd Bãrds, pelo Banguela Records, selo de propriedade dos Titãs. O álbum, produzido por Carlos Eduardo Miranda, agradou aos novos fãs, com sua inteligente mistura de rock de garagem e letras divertidas. Para os conhecedores mais antigos, no entanto, o resultado foi um pouco decepcionante: as músicas estavam muito rápidas, sujas e tinham perdido um pouco da inocência rockabilly presente na demotape. A impressão que dava é que o Little Quail gravara o disco de forma ansiosa, querendo aproveitar a onda hardcore dos Raimundos, o que acabou desfigurando de maneira considerável o seu som.

O segundo disco da banda, A Primeira Vez que Você me Beijou (1996), trouxe respostas claras aos deslizes do primeiro álbum: as músicas voltaram a ficar mais limpas e num ritmo cadenciado. No entanto, o resultado, infelizmente, soou ainda um pouco artificial. Parecia que o tão positivo profissionalismo da banda no começo tinha se transformado numa negativa ansiedade. Para piorar o quadro do Little Quail naquele período, o estouro dos Mamonas Assassinas e de outras bandas engraçadinhas fez com que eles fossem incluídos num pacote de grupos “besteirol” e “sem conteúdo”. Nada mais injusto para uma banda pioneira, que sempre teve a fina ironia como uma das suas mais poderosas armas.

Lembro que, ao lançar o primeiro disco do Prot(o), em 2003, um jornalista de um site especializado em música me fez uma pergunta mais ou menos assim: - Vocês fazem parte de uma geração (encabeçada pelo Los Hermanos) que está voltando a dar atenção e profundidade às letras, etc e tal. Em um dos momentos em que me senti justo na vida, fiz questão de responder que não concordava muito com essa visão e que, se as coisas fossem colocadas dentro de um contexto, ficaria claro que bandas como Little Quail e Raimundos tinham letras excelentes e diferenciadas à sua maneira.

O passar dos anos tem criado um hype em torno do Little Quail e de outras bandas dos anos 90, num processo cíclico natural. Hoje, com cada um de seus ex-membros tocando seus projetos individuais (Gabriel comandando o Autoramas; Bacalhau nas baquetas do Ultraje a Rigor e do Orgânica e o Zé Ovo como um experiente diretor de palco), a banda dá shows esporádicos para um público formado por antigos e novos fãs, ávidos por ter contato com aquele espírito adolescente presente nas músicas da banda.

Há alguns anos, pude ir a um desses reencontros aqui em Brasília, num ginásio que, se não ficou lotado como em outros tempos, encheu o suficiente para criar um clima de saudável nostalgia e reverência a uma das bandas mais importantes e admiradas da história do rock brasiliense.

* Carlos Pinduca foi integrante das bandas Maskavo Roots e Prot(o) e edita o Pinduca's blog, onde este texto foi originalmente publicado.


Little Quail and the Mad Birds - A primeira vez que você me beijou (Virgin, 1996)

01. A Alegria Está Contagiando O Meu Coração
02. Mau-Mau
03. O Alarme
04. AA
05. I Need You
06. Rachel's
07. Composição De Sucesso
08. Dezesseis
09. Me Espera Um Pouco
10. Ponta De Lança Africano (Umbabarauma)
11. Galera Do Fundão
12. Problem Girl
13. Vencemos
14. Tre-le-lê


16/08/2009

Coletânea

Daqui até dezembro, quando pretendo publicar uma retrospectiva da década, estarei publicando um série de coletâneas de bandas da primeira década dos 2000, de todos os estilos. A primeira é esta aqui.




Rock Brasíia, desde 1964 – 2000’s

1. Móveis Coloniais de Acaju – Adeus
2. Prot(o) – Legião Urbana
3. Suíte Super Luxo – Depois dos Beatles tudo é decadência
4. Seu Dreher – Flautas
5. Velhos e Usados – O carneiro e o leão
6. Capotones – Três
7. Lucy and the Popsonics – Fashion bloody fashion
8. Gilbertos Come Bacon – Piolho
9. Gonorants – Papagaio Lauper
10. Os~ – O raimundero
11. ASKeS – O dia em que a Xuxa foi assassinada com requintes de crueldade
12. Nancy – Inbox Drama
13. Superquadra – DJ Spaceboy

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Uma boa semana para todos!

26/04/2009

Billy from hell

Desde os tempos do Little Quail, a única banda brasiliense de rockabilly ou derivações que conseguiu fazer um trabalho que não soasse como cópia ou que não causasse sensações de deja vu em ouvidos mais esclarecidos foi o Capotones.

Ao contrário de seus contemporâneos, que não arriscam um centímetro além das fórmulas e arranjos mais que manjados, o Capotones inovou no visual, quase glitter, e nas músicas, um psychobilly com referências de rock pesado, do metal ao hardcore à Dead Kennedys.

Nos anos 90, o Little Quail mostrou para quem quisesse ver, que era possível unir os riffs e beats dançantes do rock 50’s com o vigor e a energia das guitarras distorcidas do seu tempo. O resultado foi uma das bandas independentes mais influentes do Brasil. O Capotones não chegou a ter tanto alcance nacional, mas na minha modesta opinião, foi a mais talentosa banda billy do Brasil nos últimos dez anos. E a única brasiliense do gênero que merece alguma menção, pelo menos pra mim.

Um detalhe curioso é que o líder e idealizador da banda, o guitarrista Rafael Lobo, usava uma guitarra que ele projetou exclusivamente para tocar com o Capotones. Além dele, formavam a banda os competentes Pablo Cebola (voz e guita), Leo Ofugi (baixo) e Rodrigo Pinto (bateria). A banda acabou em 2007.

Seu único álbum (há também um split póstumo) foi lançado pelo selo brasiliense Prótons em 2005. E apesar da (boa) produção ter deixado escapar a sujeira conceitual presente na demo, é um dos discos mais bacanas do rock brasiliense dos anos 2000.

CapotonesCapotones (Prótons, 2005)

1. Três
2. Jackie D
3. Opalão
4. Teoria do Caos
5. Balada do Assassino
6. Verão Químico
7. SM Blues
8. Hijo de la Muerte
9. Blues Traveco
10. 400 C.V.
11. Última Onda
12. Handsome Devil
13. Surf Rock Afegão


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15/04/2009

Quarta coletânea - disco 2

Aí vai a segunda parte da Quarta coletânea:


Coletânea Rock Brasília, desde 1964 - Hits (disco 2)

15. Suíte Super Luxo – Idiota em 5050

16. Oz – Space cake

17. Escola de Escândalo – Luzes

18. Prot(o) – Encarando a face do mal

19. Detrito Federal – Se o tempo voltasse

20. Os Cabeloduro – Mãozinha

21. Lucy and the Popsonics – Quero ser seu Tamagotchi

22. Gilbertos Come Bacon – Sem verdade

23. Finis Africae – Armadilha

24. Capital Inicial – Leve desespero

25. Bois de Gerião – Dia de sábado

26. Etno – Revolução silenciosa

27. Arte no Escuro – Beije-me cowboy



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