por Carlos Pinduca*
A primeira vez que ouvi falar do
Little Quail and the Mad Birds – banda brasiliense formada em
1988 por
Gabriel (voz e guitarra),
Zé Ovo (baixo) e
Berma (bateria - logo substituído por
Bacalhau) – foi em meados de
1990, por meio dos meus colegas do
Conexão Brasília, banda de colégio de onde saíram três membros da formação original do
Natiruts e dois do
Maskavo Roots. O
Conexão tinha tocado nas eliminatórias do
Festival Interno do Colégio Objetivo (FICO) – em grau de importância para a gente na época, uma espécie de
Rock in Rio - e seus membros voltaram falando de uma banda
ridícula e esquisita que tocava uma música também ridícula e esquisita chamada
1,2,3,4. O pior é que, assim como o
Conexão, eles tinham passado para a
grande final do festival, que se realizaria no
Ginásio Nilson Nelson, com show de encerramento do
Barão Vermelho.
Se não fui às seletivas, acabei comparecendo à final do
FICO, para engrossar o coro de torcedores do
Conexão. Além de assistir aos meus colegas de colégio, fiquei curioso também para ver a banda ridícula tanto falada, o tal
Little Quail. Mas os concorrentes foram passando e nem sinal deles: ou tinham tocado antes de eu chegar ou simplesmente não deram bola e “mataram” o festival. Posso estar confundindo as histórias, mas anos mais tarde fiquei sabendo que eles não foram à final do
FICO porque estavam trazendo para Brasília naquela noite o
Missionários, banda seminal de
psychobilly de
Curitiba.
De qualquer forma, só consegui assistir de fato ao
Little Quail tardiamente, já no final de
1991, em um show no
KG Bar, boteco instalado por pouco tempo nos fundos do então badalado Centro Comercial
Gilberto Salomão. Fiquei de cara com a banda: eles eram afiados no palco e contavam com um público fiel – tudo isso em cima de um repertório próprio que
fugia ao senso comum da época.
Neste ponto, vale explicar um pouco o contexto daquele final dos
anos 80 e iniciozinho dos
90: o que preponderava era o rock com letras politizadas e forte apelo poético, fruto de uma forte influência
renatorussiana. Algumas bandas, como
De Falla,
Kães Vadius e
Cascaveletes, já fugiam desse padrão, mas o que estourava nas paradas era mesmo
Paralamas,
Barão,
Titãs e
Legião Urbana e seus seguidores, como os cariocas do
Uns e Outros, por exemplo.
E mesmo se considerássemos o
Little Quail dentro de um pacote de bandas mais
debochadas, digamos assim, como
Ultraje a Rigor ou os chatos e bombados à época
Inimigos do Rei, dava para notar que a banda de Brasília já rumava por um caminho mais radical. Um belo exemplo desse radicalismo é a
música 1,2,3,4, cuja letra se limita simplesmente a contar os quatro primeiros números cardinais, de forma nonsense e excessivamente minimalista, sobre uma base musical
mezzo rockabilly mezzo punk rock.
Em Brasília, as canções inusitadas e criativas do
Little Quail –
Família que Briga Unida Permanece Unida,
Azarar na W3,
Essa Menina,
Aquela e
1,2,3,4, entre outras – tornavam-se cada vez mais conhecidas, sempre dividindo a opinião do público sobre o seu conteúdo pretensamente
bobo. No entanto, bastava uma olhada mais atenta para notar que ali não existia nada de ingênuo. Pelo contrário, o que havia era uma
fina ironia, uma propositada infantilidade com clara intenção de
nadar contra a maré do que era considerado sério por parte do público e crítica.
Nesse sentido, vale ainda chamar a atenção para o
pioneirismo do
Little Quail dentro da
cena musical brasiliense dos
anos 90. Eles foram os
primeiros da sua geração a fazer
intercâmbio com bandas e jornalistas de outras cidades. Também foram uma das primeiras bandas da capital – ao lado dos grupos de
Metal – a lançar e comercializar sua já
clássica fita demo, em
meados de 92. Essa atitude sempre profissional levou o
Little Quail a integrar a coletânea
A Vez do Brasil, lançada pela gravadora paulista Eldorado no ano de
1993, o que fez com que suas músicas fossem incluídas na programação de diversas rádios pelo Brasil. No final deste mesmo ano, numa clara trajetória ascendente, a música
1,2,3,4 chegou a ser considerada, junto com
Haiti (de Caetano e Gil), como a
melhor canção de 1993 pela revista
Bizz.
Em
1994, o
Little Quail finalmente lançou o seu aguardado primeiro disco,
Lírou Quêiol en de Méd Bãrds, pelo
Banguela Records, selo de propriedade dos
Titãs. O álbum, produzido por
Carlos Eduardo Miranda, agradou aos novos fãs, com sua inteligente mistura de rock de garagem e letras divertidas.
Para os conhecedores
mais antigos, no entanto, o resultado foi um pouco
decepcionante: as músicas estavam
muito rápidas, sujas e tinham
perdido um pouco da inocência rockabilly presente na demotape. A impressão que dava é que o
Little Quail gravara o disco de forma ansiosa, querendo aproveitar a onda
hardcore dos
Raimundos, o que acabou desfigurando de maneira considerável o seu som.
O segundo disco da banda,
A Primeira Vez que Você me Beijou (
1996), trouxe respostas claras aos deslizes do primeiro álbum: as músicas voltaram a ficar mais limpas e num ritmo cadenciado. No entanto, o resultado, infelizmente, soou ainda um pouco artificial. Parecia que o tão positivo profissionalismo da banda no começo tinha se transformado numa negativa ansiedade. Para piorar o quadro do
Little Quail naquele período, o estouro dos
Mamonas Assassinas e de outras bandas engraçadinhas fez com que eles fossem incluídos num pacote de grupos “besteirol” e “sem conteúdo”. Nada
mais injusto para uma banda pioneira, que sempre teve a fina ironia como uma das suas mais poderosas armas.

Lembro que, ao lançar o primeiro disco do
Prot(o), em
2003, um jornalista de um site especializado em música me fez uma pergunta mais ou menos assim: - Vocês fazem parte de uma geração (encabeçada pelo
Los Hermanos) que está voltando a dar atenção e profundidade às letras, etc e tal. Em um dos momentos em que me senti justo na vida, fiz questão de responder que
não concordava muito com essa visão e que, se as coisas fossem colocadas dentro de um contexto, ficaria claro que bandas como
Little Quail e
Raimundos tinham letras excelentes e diferenciadas à sua maneira.
O passar dos anos tem criado um
hype em torno do Little Quail e de outras bandas dos
anos 90, num processo cíclico natural. Hoje, com cada um de seus ex-membros tocando seus projetos individuais (Gabriel comandando o
Autoramas; Bacalhau nas baquetas do
Ultraje a Rigor e do
Orgânica e o Zé Ovo como um experiente diretor de palco), a banda dá
shows esporádicos para um público formado por antigos e novos fãs, ávidos por ter contato com aquele espírito adolescente presente nas músicas da banda.
Há alguns anos, pude ir a
um desses reencontros aqui em Brasília, num ginásio que, se não ficou lotado como em outros tempos, encheu o suficiente para criar um clima de saudável nostalgia e reverência a uma das bandas mais importantes e admiradas da história do rock brasiliense.
Little Quail and the Mad Birds - A primeira vez que você me beijou (Virgin, 1996)
01. A Alegria Está Contagiando O Meu Coração
02. Mau-Mau
03. O Alarme
04. AA
05. I Need You
06. Rachel's
07. Composição De Sucesso
08. Dezesseis
09. Me Espera Um Pouco
10. Ponta De Lança Africano (Umbabarauma)
11. Galera Do Fundão
12. Problem Girl
13. Vencemos
14. Tre-le-lê