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31/07/2015

Dramaturgia jornalistica do dia-a-dia nos dai hoje

Já notaram que os programas jornalísticos-culturais estão virando novelas? E as as novelas do mundinho sub-celebridade-indie-hippie estão se transformando em programas jornalísticos?
Memória de brasileiro é mais curta que a grana. Todavia, não faz muito tempo, Gugu (aquele) criou (maneira de dizer) um blefe com o PCC de matar Manoel Carlos de inveja.

As novelas, por seu lado, estão funcionando agora como informativos sobre direitos civis, homossexualidade, saúde, higiene etc. A qualquer momento, portanto, poderemos ver William Bonner fazendo par romântico com Carolina Dieckmann na novela das oito. Ou Francisco Cuoco virando correspondente, em Nova York, do Jornal da Globo. Nota-se esta inversão de valores quando a maior notícia é uma banda dita de rock ser julgada num programa televisivo cheio de playbacks e celebridades sábias com o google à mão, E tive certeza de tudo quando vi a empregada da vizinha chorando convulsivamente ao assistir uma fala de da Filha de Xororó sobre a pobreza da nossa produção musical.  Não demora muito, ela abre um fã-clube do Eri Johnson e faz stand-up ou vira concorrente nos show de horrores de calouros. Claro, isso muda muita coisa na televisão brasileira.

A ideia de Fernanda Lima virar editora-chefe do Jornal Nacional e a de Andre Marques ser colunista da editoria musical parecia longínqüa. Mas pode acontecer muito antes do esperado.  Não esqueçamos que esses formatos enlatados hoje são a melhor vitrine do país. E todo bom jornalista sem diploma e opinioso cheio de si, quer mesmo é informar, não importa o meio, e sim a mensagem.

Já os telejornais contam com apresentadores cada vez mais ricos, vaidosos e totalmente neuróticos com a fama.  A mania de contratar produtores de pegadinhas para fazer pautas jornalísticas é outra coisa que tem trazido fortes mudanças na telinha. Alguns comunicólogos acreditam que Lula vestido de tirolês, dançando embriagado no último Oktoberfest, não passou de mais uma armação da “Casa de Criação” da Plim(2x). Analisado assim, o conceito de grandes coberturas ao vivo também se alterará com o tempo.

Se permanece esta tendência, devem demitir seu Núcleo de Jornalismo Esportivo. E mandar o elenco de “Malhação” cobrir as próximas Olimpíadas. Galvão Bueno e Casagrande podem ser aproveitados no Núcleo de Dramaturgia, graças ao grande carisma, fazendo “Carga Pesada”. Até porque, ao que tudo indica, Stênio Garcia e Antônio Fagundes devem ser os novos apresentadores do “Globo Rural”.  Se o Louro José não aceitar o cachê de 60 mil reais por mês oferecido pelo pessoal do Jardim Botânico, é óbvio.

PS: Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

18/11/2013

A arte está está nas ruas e (quase) nada vai detê-la


Depois de longas décadas sem escrever por aqui, não pude me furtar a análise dos tempos atuais. O que se observa é que hoje, as produções que visivelmente são feitas apenas como meio de lucrar através de um sistema, que não preza pela arte e sim pela saúde mercantilista, me incomodam.  

O que me motivou a escrever sobre isso? Ver tantos artistas produzindo apenas repetição. Poemas e músicas chatas, sem sentido, que não transcendem. Poemas que não dizem músicas que sempre se parecem com alguma outra por aí. Na arte pictórica então, vish. Milhões de quadros de barcos tortos com a perspectiva errada. Milhões de imagens que não dizem nada, não expressam sentimento ou pensamento, ainda que sejam só aparentes rabiscos. Concordo quando definem a arte como; Originalidade.

Será que poderíamos por a prova a arte de muitos desses que defendem a arte? Confesso que meus ouvidos andam cansados de alguns músicos por aí.  Porquê? Porque eles fazem mais e muito mais do mesmo. Reproduzem as mesmas soluções musicais, as mesmas combinações... que cansativo. Ouvir um CD inteiro é quase um martírio.  Então, depois da formação psicológica que o currículo acadêmico me proporcionou (e o tema da mono ser Musicoterapia, reinclusão de deficientes através da percepção musical) percebi que, podemos dividir estas inquietações em quatro itens:   

Excelência Técnica, Validade,Conteúdo intelectual (visão cosmológica do artista) e Integração entre conteúdo e veículo . Neste primeiro tópico já eliminaríamos grande parte do músicos e outros artistas por aí. Até bem pouco tempo, o modus operandi" era fazer tudo pelo feeling, sem estudo, na base da vontade.  Não digo que não foram feitas coisas boas. Foram sim.  Mas penso que hoje as coisas mudaram bastante e quem não tem um conhecimento mais aprofundado de sua arte, vai se repetir, vai ficar chato e cansativo.

O que se vê por aí, cada vez mais que quantidade não é sinônimo de qualidade. Ao contrário. Quanto melhor a arte mais tempo e reflexão ela pede. A produção fica reduzida.  E digo. Lá fora os artistas são monstros. Para ser ouvido, será necessário muito arroz com feijão. Talvez isso seja um tiro no pé. Sem a Excelência Técnica não diremos artisticamente nada a ninguém. Esse tempo já foi. Os caras que no passado fizeram isso, esgotaram o assunto. Se sendo bons, muitos já estão à margem. Quando digo de excelência técnica não digo só de virtuosismo. Mas também cabe a ele.    

Quanto a Validade até nem questiono tanto.  Pois os assuntos, os valores são quase sempre os mesmo abordados em toda a história. Mas valeria um comentário. Que pena que a arte sacra se foi. E que pena que não temos mais os "Rembrandts" pintando FIlhos Pródigos e Jeremias. Tentando ver a arte ainda na sacralidade

Com isso, vejo um problemão no próximo tópico:

Conteúdo intelectual (visão cosmológica do artista). Toda arte expressa a cosmovisão do artista. O que ele crê ? Quais as suas convicções? Não era a toa que Picasso colocava uma pessoa de perfil e ainda assim você via o olho que deveria estar escondido. Isso mostrava seu pensamento filosófico, sua visão de vida. A mesma coisa com o Salvador Dali e quase todos os grandes. Em todos os períodos, temos artistas defendendo posicionamentos, pensamentos filosóficos e etc. E eis  um grande colapso. Sobre o que diz a nossa arte? Aliás, queremos falar do quê? Penso que ainda teremos um longo caminho a percorrer antes de ousarmos responder essas questões.

O próximo tópico também é bem complicado. Como escolher a melhor maneira de dizer o que preciso se minha cosmovisão e excelência técnica estão em colapso? Com certeza este tópico será destruído, pela ausência dos valores anteriores. Pra se escolher a melhor maneira de dizer com o melhor caminho, escolhendo as melhores ferramentas; é preciso ter as ferramentas e os recursos. 

Sem conhecimento, habilidades e convicções cosmológicas, nunca se fará Arte de verdade. Serão apenas tentativas chatas de fazer alguma coisa. E o público? Aplaudiu! Meus amigos, se o artista que é o grande preocupado em estudar, se aprimorar, pensar o modo de criar, o que dizer e etc... está falhando e está em colapso, como o público conseguirá avaliar?

Porém os expectadores sim, terão  direito de usar o feeling na avaliação. Vejo que é bonito você parecer cult, assistir milhões de filmes e ver inúmeros espetáculos, assistir orquestras e etc. Essa imagem de conhecedor de Arte pode ser sim, muito falsa. E os aplausos recebidos podem ser de completos ignorantes no assunto. Por isso o critério do artista deve sobrepujar os aplausos e as palavras doces no final da apresentação. Sua arte deve estar em constante prova e a busca pela inovação e originalidade incansáveis.

Se o artista cansar de buscar a originalidade, sua arte morreu.

22/08/2013

O fim de uma Era

Os anos 2000 acabaram para a música brasileira. Em ruínas. Algo prenunciado desde as primeiras rachaduras que surgiram logo após a farra eleitoral de 2010.

Pra ser mais exato, no ano seguinte, quando aconteceu o cisma na antes onipresente Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes), a entidade se esfacelaria definitivamente meses depois.

Hoje, depois do novo episódio envolvendo o outro pilar da palafita indie estatal, a rede Fora do Eixo, a coisa parece que foi pra conta mesmo.

A série de denúncias iniciada após a participação do Pablo Capilé no programa Roda Viva se desdobrou em situações impensáveis há uns anos, como a de produtores outrora tão fraternais e alinhados, trocando insultos ou batendo boca em redes sociais. É a hora que ninguém aparece pra assumir a paternidade dos rumos trilhados.

Já tem um tempinho que publiquei um post sobre o que aconteceu no rock nacional durante a Era Indie Estatal.

Pois então, aquele post rendeu algumas mensagens malcriadas, e-mails boca-suja, etc. Tudo porque o título citava a morte do rock brasileiro. Ora, quem leu corretamente o que escrevi, entendeu o que foi dito. Entretanto, mesmo ali, eu apontei claramente que a causa mortis não era a falta de matéria-prima, mas a distribuição tendenciosa de artistas nesse circuito viciado de festivais que deitou e rolou durante uma década nos editais, sem entregar contrapartida social ou cultural alguma.

E foi justamente pra mostrar o outro lado dessa história, ou seja, o das bandas diferenciadas que se perderam em meio ao caldeirão dos apadrinhados, que resolvi reunir algumas delas na coletânea Nâguetz, 30 faixas ao todo.

Descubra ou relembre alguns dos hits produzidos pelo rock brasileiro na última década e que você talvez desconheça. Fique com o volume 1.


R64 Nâguetz 2000-2010 (BAIXE AQUI)

1. Eek (AL) – Contando as horas
2. Charme Chulo (PR) – Mazzaropi Incriminado
3. Prot(o) (DF) – Encarando a face do mal
4. Terminal Guadalupe (PR) – Romance Juvenil Operário
5. Lucy and the Popsonics (DF) – Coração Empacotado
6. Gonorants (DF) – Espelho dos outros
7. The Feitos (RJ) – Disco do Roberto
8. Selvagens à Procura de Lei (CE) – Mucambo Cafundó
9. Los Porongas (AC) – Lego de palavras
10. Superguidis (RS) – Não fosse o bom humor
11. Superquadra (DF) – Atlântico
12. Johnny Monster (SP) – Saudade
13. The Pro (DF) – Ana
14. Kafka Show (SP) – Em paz
15. Sociedade Bico de Luz (RS) – A musa do T2

15/08/2013

A tristeza do artista quando jovem


Era uma vez, um evento cheio de banda autoral num pub bacana, dia de semana e cerveja gelada no freezer. Quando olhou o camarim reservado, se alegrou. Instrumentos musicais se misturavam ao cheio forte da urina no banheiro acoplado. Depois de anos de anonimato, esnobação dos críticos e completa inexistência na lembrança da mídia gorda, aquilo era a prova de que havia certa justiça “nesse mundo de meu D´us”. O autoral, enfim, tinha voz (e vez!).

Numa algaravia, os auxiliares perguntavam coisas sobre a tonalidade da mesa de som, sobre o roteiro, os convidados “vip”, as canjas. Mas seus ouvidos não acompanhavam mais nada do que vinha de fora. Só as orelhas de dentro funcionavam agora. As orelhas e os olhos internos.

Lembrava-se com grande clareza de seu longo calvário, as temporadas no circuito alternativo das cidades-satélites de Brasília. Muitas vezes tocando sem cachê algum, apenas para tentar imprimir suas ideias revolucionárias a um grupo pequeno, mas interessado no novo. Por outro lado, não havia meio do trabalho dele decolar, parecia uma sina. Quanto mais tentava divulgá-lo, buscar pacientemente espaços, mais era esquecido pelos que controlavam as programações de rádio e tevê. O acaso começava a jogar a favor. Agora vai.

Um assistente avisou que faltavam dois minutos para o início do show. Fez uma pequena prece, memorizou o repertório. Ouvindo o ruído dos primeiros ruídos de rock da noite, ergueu-se, dirigindo-se altivo à boca do palco, e, como sempre, à espera de um show que nunca começava.

Nesse instante, o último ônibus para sua casa tinha acabado de passar. Sua volta pra a tão aguardada cama quente há 50 km dali, era apenas um desejo distante. Seu dinheiro mal dava pra pegar as outras 4 conduções até chegar no tão sonhado lar doce lar. 

E, em seu momento mais triste, parou – olhou – refletiu: Para que serve o atraso?500 anos nos fazemos esta pergunta. E, antes de nós, os portugueses também a faziam. Só que, para eles, a resposta era bastante curta e grossa: "Pindorama serve para levarmos ouro e deixarmos padarias”.

Para Dom Pedro I, foi amplamente divulgado, o atraso serviu para arrumar rabos-de-saia. E, para seu pai, serviu para tirar umas fotografias a mais (ou a menos!) em preto e branco. A realidade é que cada um tem uma resposta para o enigma. Se fizéssemos a mesma pergunta para formadores de opinião contemporâneos teríamos muitas surpresas. Neoliberais de raiz, por exemplo, provavelmente responderiam, com sotaque ianque: "serve pra eu continuar empregado do George Soros. Já Gisele Bündchen, grande musa, diria: “Atraso”? Mas o que é isso?”.

Sim, sempre foi difícil definir, quanto mais uma mega-comunhão de raças, credos e times de futebol. Há quem diga que o ele não existe, que é apenas mais uma novela da Globo, transmitida 24 horas por dia, com direção do Roberto Talma e roteiro da família Marinho.


Há os que juram de pés juntos que o relógio é que é o culpado. Talvez, até por causa desta falta de definição, a pergunta continue latejando em nossas testas por séculos e séculos: pra que servem eventos com esperançosas almas, artistas multifacetados e uma dívida infinitamente menor que a paciência da sua população? Serve para o trabalho (quando há trabalho), em vez de dignificar, danificar o Homem? Serve para enriquecer meia centena de produtores? Serve pra escrever crônicas interrogativas como essa? Talvez fosse melhor pensar para o que não serve esta falta de respeito.

Por isso, é tão importante se fazer esta pergunta. Ao dormir, ao acordar, ao fazer as refeições (se houver refeições), na fila do INSS, na carteira escolar, no banho (se houver água). Afinal de contas, para que serve o horário estabelecido nas casas de shows? Os velhacos mandatários da nossa política já devem ter se feito esta pergunta antes. E muitos já teriam mesmo uma resposta pronta, na ponta da língua, há muito tempo: "o relógio serve pra me servir”.

E, como tudo o que escrevi aqui é ficção, pode ser que eu esteja fingindo ou mentindo.

04/03/2013

Onde estão nossos grandes homens e suas grandes ideias?


Urge em Brasília uma enorme renovação no rock. E não só às 19 horas como informa a Voz do Brasil. Aquele cujo fama se desenvolveu sendo oitentista e noventista com grupos que faziam covers, desde bandas americanas como Bill Halley and His Comets até os Bítous.

Houve um empréstimo no repertório e pouquíssimo na atitude. Os sorrisos ingênuos, as saias curtas, os cabelos penteados pra cima, as calças boca-de-sino e um certo constrangimento. O Brasil passava por um período de chumbo que iria se aliviar por volta de 1979/1980 em um processo de redemocratização.

Câmbio Negro, Raimundos, Legião Urbana, 5 Generais, Replicantes, Graforréia Xilarmônica, Peter Perfeito, Camisa de Vênus, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso, Little Quail e etc....

As bandas acima (e centenas de outras) tinham influências (e quem não tem?), mas possuíam características singulares, que atraíam fãs de todo o Brasil, cada um com seu jeitinho, cada um com suas peculiaridades e cada um com suas próprias riquezas.

Talvez por conta do momento vivido pelo país entre 80 e 90, muito do discurso de tais bandas serviram de retórica para uma geração carente de representantes (honestos) nos lugares centrais do Brasil. Esses grupos, junto com seus vocalistas, ganharam fama e renome por traduzirem um sentimento e o inconsciente coletivo de uma sociedade marcada por tempos em que se comprava um arroz de manhã a um preço e a tarde ele estava remarcado e mais caro.

Muitas vezes, esse discurso vinha cheio de estilo e de uma nobreza textual impressionantes, caso de Legião Urbana e Paralamas do Sucesso, ou com ironia, deboche e/ou sutileza, caso de Ultraje e Little Quail. Independentemente do formato, eles diziam o que pensavam, o que sentiam, e levavam multidões a cantarem em brandos orgulhosos “eu faço parte da galera do fundão”, por exemplo.

Faz um tempo que vivemos um novo milagre econômico (tal nomenclatura ganhou nascimento na década de 50 com Juscelino) e um momento do país que equalizou em alguns setores (não sejamos modestos quanto a isso) a condição de um segmento na sociedade que sempre procurou se atualizar. São aqueles que consomem informação, que pagam ingressos em casas de show e teatro, compram CDs aqui e lá fora, criticam, interagem, assumem posturas, debatem e criam teorias.

Hoje em dia a maior crítica ao status quo de qualquer coisa em qualquer lugar não vem do santo e sagrado palco, mas do próprio público.O que aconteceu com a proposta textual do rock candango? Impossível diagnosticar apenas um sintoma desta patologia incubada, que não mata, mas incomoda. Uma dor que aparece de vez em quando, some e volta para dela lembrarmos. O rock do quadradinho (aquele cantado em português, baixo, guitarra e bateria, com balada radiofônica, no máximo) tornou-se coverizado e muito menos semelhante à voz de um povo.

Tu está certo se pensa que a proposta do rock não necessariamente está ligada a se fazer ícone da voz do público ou de um grupo específico, mas, coincidentemente, desde que não temos mais música que leva a uma certa reflexão, temos uma expressão artística bem discutível na questão do seu próprio valor artístico e abstrato.

Tolice querer enumerar bandas que hoje possuem um texto musical diferente de boa parte dos exemplos citados acima. Seria restringir ao gosto pessoal e desrespeitar o leitor no fato que gosto é coisa abstrata, discutível filosoficamente, mas de debate infrutífero.

A música piorou. O texto também (inclusive os meus!). Os recursos linguísticos são recorrentes, sem autoindulgência e atendendo (por mais clichê que seja) uma receita estabelecida pela promoção, não de um pensamento, mas de um estilo. As bandas hoje são menos conhecidas do que o carimbo que levam. As pessoas gostam, por exemplo, de forró universitário, não importa quem seja o intérprete daquela moda.

Será que há 30 anos também tínhamos um discurso ensaiado pelos interesses fonográficos e uma feliz coincidência com o que havia de melhor produzido em todos os termos? Tudo não passou de uma grande benção a obtenção de letristas como Renato Russo, Rodolfo Abrantes, Gabriel Thomaz e outros tantos bons candangos?

O que se espreita é que não há nenhum interesse (ao menos aparente) de que surja um novo jeito de se fazer música, que consiga unir uma qualidade textual abrangente e uma música bacana, atraente e que mexe com corações. Parece que nosso rock só pode atender hoje uma condição, sem atender outra. Não consegue ser completo. Anima, festeja, mas não “cativa” ou cativa, anima, mas não “festeja”. Não há um sentido de integridade.

Não é engraçado. É triste.

16/11/2012

Rock candango daqui pra frente: Bateu asas e sumiu?


Tão polêmico quanto os vídeo do Guri e Os Mamilos, depois de longas e intermináveis conversas com músicos amigos meus, produtores e apreciadores do rock brasiliense, restou uma conclusão quase definitiva: o dito cujo ritmo com guitarras do cerrado envelheceu.

Talvez seja aquela máxima de que os tempos são outros, e que na minha época e todo blábláblá exposto pelos figurões do rock candango de outrora. Acabou toda e qualquer vontade de montar banda, de fazer letras de protesto e etc. Essa gurizada leite-com-pêra hoje, quer saber de reclamar muito no twitter e nada mais.

Os poetas/músicos contemporâneos não tem mais aquela coisa de expressar seus pensamentos de uma maneira pessoal e encontrar as reverberações, bem como um texto como uma segunda parte da obra musical. Não entram num ‘tom’, nem se encaixam com os acordes e a rítmica. Não há originalidade em suas obras.

Em momentos de nostalgia relembrando Rumbora, Sentupé, Escola de Escândalo, Codorninhas dentre outras do cenário oitentista e noventista, é muito comum que todas essas figuras listadas no primeiro paragrafo compartilhem da ideia de que o rock de Brasília anda meio morno e/ou quase cru.  Salva uma ou outra coisa que se pode recomendar para fora do quadradinho no meio do Goiás. Nos idos tempos de cidade do interior, os K7´s enviados por amigos da capital federal sempre deixaram a marca de “o rock gaúcho é bom, mais o de Brasília é excelente!”. 

Contudo, entendo que a música é uma arte e, como tal, não consigo concebê-la na forma como é feita modernamente, com visuais exagerados e forjados, músicas de composição terceirizada e milhões de dólares em muito, muito marketing que acaba por convencer qualquer um que determinado lixo é cool! E daí nasce um hit, nasce um ídolo e até um mito.

É. Soa estranho dizer isso. Cada geração teve seu ritmo marcante (rock, lambada, tango, dance, etc.), mas só porque sua adolescência passou e seus ídolos pararam de produzir, não quer dizer que toda aquela cultura se perdeu no vento e que os filhos de Brasília  não tenham influenciado novos talentos capazes de produzir material de qualidade. Resta saber: Aonde estão nossas  grandes boas bandas e suas grandes ideias de outrora? No próximo mês quem sabe, tudo isso acabe e eu já tenha me esquecido de vez?

15/05/2012

Fã de Internet é o novo punk de boutique


A cultura do fã foi reformatada na era da tecnologia digital  e produziu uma diversidade de tipos de conhecimento diferentes em nossos ambientes musicais, até então.

Essas participações que emergem nas redes estão entre as tendências atuais.

A possibilidade que os consumidores têm de arquivar, anotar, se apropriar e re-circular o conteúdo a partir de novas ferramentas e tecnologias; Ou promoção do "Do it toguether" ( proposta pelos coletivos culturais) e promovida por uma variedade de subculturas na web, são bons exemplos.

Por meio dos fóruns on­line e sites de relacionamento, as audiências interativas tornam visíveis o “trabalho dos fãs”, que antes era invisível às mídias massivas, ou então possuía uma visibilidade mínima por meio de correspondências, ou de fanzines e meios alternativos.

A interatividade das tecnologias, as interações que ocorrem entre os consumidores de mídias, os textos e os produtores, uma vez que as fronteiras entre esses papéis encontram se embaralhadas.

Os fãs de rock, rap, música eletrônica, apenas para citar três gêneros musicais de grande apelo às culturas juvenis (e as cada vez mais comuns hibridizações entre eles), identificam-se com uma cada vez maior amplitude de subgêneros e estilos derivados dessas matrizes, que surgiram ainda no século passado em algum lugar entre a cultura de massa e a contracultura.

Em relação aos fãs de música e suas experiências on­line, duas tendências podem ser distintas ou associadas: o fã-colecionador, aquele que divide seus registros (obtém vídeos, gravações raras etc. e as compartilha nas redes).

O colecionador pode se apropriar de uma determinada materialidade tecnológica e transformá-­la de acordo com seu próprio gosto e identidade, ou ampliar o repertório de artefatos culturais em uma ressignificação das práticas de consumo.

O fã-produtor, aquele que se torna também parte do cenário produzindo material próprio a partir de suas referências musicais.Nesse contexto de popularização das ferramentas tecnológicas de produção, gravação e distribuição da música. Quem ganha são vocês, antenados e descolados virtuais. Aproveitem porque em tempos de S.O.P.A, mosca não pode pousar!

18/12/2009

Até 2010!

Pois é amigos, 2009 chega ao fim. É impressionante como despenca a frequência por aqui depois do dia 15 de dezembro. É o sinal pro Rock Brasília, desde 1964 entrar também em recesso.
2009 foi o ano do reencontro entre os brasilienses e os remanescentes da Legião Urbana, o primeiro desde o fatídico show de 1987. Ano em que o principal festival da região, o Porão do Rock, resolveu dedicar um de seus dias a uma homenagem ao rock de Brasília. Naquele domingo especial, muitas pessoas foram apresentadas a bandas de diferentes gerações como Little Quail, Maskavo Roots, Os Cabeloduro, Escola  de Escândalo, Detrito Federal....
O ano se encerra confirmando o que 2008 apontava, a produção brasiliense continua revelando bandas de talento a cada ano. Bandas como Enema Noise ou Meias Descoloridas são alguns exemplos surgidos aos 47 do segundo tempo da década e reforçam essa tese.
Antes de sair de férias, porém, queria deixar meus votos de boas festas para todos que participaram, mesmo com críticas. Pros parceiros de blogosfera, Cariello, Pinduca e Evandro que me cederam gentilmente alguns textos e cartuns em 2009. E, é claro, pros leitores que aparecem dos quatro cantos do Brasil e também para os músicos batalhadores e independentes que caminham a duras penas com as próprias pernas.
Lá pela segunda quinzena de janeiro, o Rock Brasília, desde 1964 estará de volta com novidades, entrevistas exclusivas e outras cositas que estou  preparando.
Um Feliz Natal e um ótimo Ano Novo para todos.

Até 2010!

Aproveite para ler sobre a história do rock brasiliense nos anos 1960s, 1970s, 1980s e 2000s ou baixar os álbuns completos e as coletâneas exclusivas! Conheça também os Blogs Bróder.

10/12/2009

MPBsb: O Laboratório de Alfredo

O cara mais underground que eu conheço é o Alfredo.
Conheci o Alfredo há muitos rocks. Primeiro como um punk que contava ter uma banda chamada Eskroteiros e começou a aparecer lá onde a turma morava e que logo apelidamos de barriga furada, pela capacidade ímpar de tomar um litro de leite na golada, junto como bolo, biscoitos e outras guloseimas que lhe aparecessem pela frente, na casa do avô do Gabriel Thomaz.

Depois de um tempo sem vê-lo, nos reencontramos em um show em Taguatinga. Ele era então uma espécie de anarco-glitter, que aparecia nos shows de saia, coturno e batom. Uma figuraça. Lembro de uma história ocorrida no HC Festival, um show antológico que aconteceu no finado Gran Circo Lar no início dos anos 90. Ele tocava, se não me engano, numa banda chamada Pastel e Caldo de Cana (banda que tinha o Robson - ex-Macakongs 2099, Vernon Walters e outra penca de bandas, e o Cidão), um clássico de Taguá City. Pois bem, a aparição do Alfredo vestido de noiva e sem cueca foi demais pra cabeça de uns carecas (skinheads) imbecis que existiam nessa época e eles o agrediram covardemente.

Depois de um tempo reencontrei o Alfredo, ele era baixista da banda de pós-tropicália do cerrado, Os Cachorros das Cachorras (Ah sim, antes disso ainda houve a gótica Pompas Fúnebres). Nesse tempo ele andava de macacão BR, de frentista. Anos mais tarde, fiquei sabendo que o bicho havia virado pesquisador musical, um estudioso de ritmos que percorria o interior do Brasil em seus estudos.

Há umas duas semanas, soube que ele retomou sua carreira artística há um tempo, hoje se chama DJ Tudo e toca um selo que divulga exclusivamente a cultura tradicional brasileira. E que, inclusive, estava em turnê pela Europa entre outubro e novembro passados.

A curiosidade imediata em ouvir o que andaria saindo daquela cabeça depois de tanta história vivida, de tantas experiências músicais distintas me levou ao Myspace dele. E, sinceramente, não consigo descrever muito bem o som do cara. Talvez seja fruto da minha ignorância ou, talvez, eu não tenha digerido direito ainda, mas não tenho nenhuma referência imediata pra explicar a música do DJ Tudo/Alfredo. Na verdade, traz um pouco de toda a carreira artística dele.

São variações de ritmos brasileiros, psicodelia, letras críticas e contundentes, música eletrônica. Enfim, um experimentalismo com todos os ingredientes pra ser mais uma mistureba porraloca, mas não é. Tudo está equilibrado, harmonizado. É um turbilhão de informações por compasso, mas é um trabalho com muita identidade. Não tem nada de rock, é verdade, mas é um som que só poderia ter sido feito pelo Alfredo, que ao vivo é acompanhado pela banda Garrafada (que não tem formação fixa). Sugiro uma visita.

11/11/2009

Pokemóns e Punk Rock


Conheci o Lucy and the Popsonics meio por acaso, era um evento que não me lembro o nome, lá pelos idos de 2004 ou 2005. O punk rock eletrônico, que me pareceu um crossover de temas de seriado japonês e trilha sonora de video games de 16 bit, e o carisma do casalzinho, que inclusive trocava bitocas durante o show, chamou a minha atenção na hora. Ficou claro, pelo menos pra mim, que o que estava vendo era uma banda diferenciada. Pouco tempo depois, o hit Coração Empacotado começou a ecoar por aí.

Se há algo imprescindível para uma banda soar, ao menos, honesta é ela conseguir transmitir um tesão verdadeiro por aquilo que faz. É a banda ou artista conseguir demonstrar a fé e a entrega à sua música ou arte. Veja que isso não é o mesmo que “pose” pura e simples, tampouco isso se garante coreografando caras e caretas ou se fantasiando como faz, por exemplo, a gaúcha Cachorro Grande. É mais. É levar cartão vermelho por se atirar em cima de uma bateria montada no palco, como fez a Fernanda Popsonic em um "festival de rock de empresa de telefonia" aqui em Brasília, este ano. Depois disso, a produção encerrou a apresentação do casal. Lindo isso. Ser expulso do palco pela produção é um sonho secreto de toda banda de rock de verdade. É claro que os extremistas do rock pesado não engolem os dois pokemóns e suas programações eletrônicas como punk rock. Fazer o quê....

O álbum de estréia, A Fábula (ou farsa) de dois Eletropandas, de 2007, é muito bom. E o mais interessante é que ao longo das oito faixas não se percebe nada que pudesse ter sido feito por outra banda. Tudo tem muita identidade, do humor peculiar ao espírito meio nerd que transparece nas canções. As letras beiram o inacreditável com versos sensacionais como O que que você acha, amor/De lápis com borracha/Se eu erro você me apaga/Se eu sumir você me acha (Eu quero ser seu Tamagotchi) ou Garota Rock Inglês não maltrate dessa vez/O meu coração que só fala português/Com seu jeito esnobe que me lembra um burguês/Eu não leio Byron, nem escuto Coldplay (Garota Rock Inglês) ou ainda, Microscópio rarefeito /situado no seu peito/Amplifica o sinal da TV/Bicicleta da família/E o porquinho da Emília/Querem torturar o Pinochet (Estetoscópio).

Diversão garantida, agora disponível para os leitores do RockBsb64.

Lucy and the Popsonics – A fábula (ou farsa) de dois Eletropandas (Monstro Discos, 2007)

1. Garota Rock Inglês
2. Estetoscópio
3. Coração Empacotado
4. Meu gatinho Chernobyl
5. Chanson Française
6. Fashion bloody Fashion
7. Eu quero ser seu tamagotchi
8. Chick chick boom

BAIXE AQUI

26/10/2009

+ de 5.000 downloads!



Desde a publicação do show do Little Quail no Porão do Rock 2009 percebi uma turbinada geral nos downloads do blog. Eles ultrapassaram a marca de 5.000 baixadas. Muito bom!

Dando prosseguimento à série de coletâneas das bandas brasilienses desta década, aí vai a segunda, espero que curtam. Novas coletâneas serão publicadas até dezembro.

Coletânea Rock Brasília, desde 1964

1. Enema Noise - (we're better) Out of Control
2. Gonorant$ - Marciana
3. ASKeS - Carro Novo
4. Lucy and the Popsonics - Estetoscópio
5. Os~ - O conselheiro
6. Quebraqueixo - Jura de morte
7. Pulso - NDA
8. Cadabra - Adoração e plástico
9. Satanique Samba Trio - Deus odeia samba rock
10. Sons de Quarto - Vomita Tripa
11. Suíte Super Luxo - Heartcore (merthiolate hamlet)
12. Prot(o) - Eletroacústica
13. Meias Descoloridas - Amor espacial
14. Velhos e Usados - Reflexões Voláteis (ao vivo)

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Uma boa semana para todos!



14/10/2009

Vídeo: Porão do Rock 2009

Eu sei que já tem um tempo que aconteceu o festival e que já se falou tudo o que era pra ser dito. Mas, encontrei por acaso uma matéria bacana sobre o domingo do revival no Porão do Rock 2009 e resolvi trazer pra cá. Essa matéria foi produzida para o programa Contradição Show e publicada no Youtube.

08/10/2009

Entrevista: João Angelini do Gilbertos Come Bacon


Eu conheci o Gilbertos Come Bacon antes de começar a publicar o blog, e foi o nome esquisito me chamou a atenção. A verdade é que gosto de conhecer bandas com nome esquisito, mesmo que sejam umas m*rdas – o que não é o caso deles, diga-se. Aliás, pra mim, nomear banda é uma arte à parte, mas isso guardo pra outra postagem.

Então continuando, a planaltinense Gilbertos Come Bacon é hoje uma das bandas brasileiras da novíssima geração, ao lado de Macaco Bong, Cérebro Eletrônico, Los Porongas e dos conterrâneos Velhos e Usados, que conseguem incluir elementos distintos da música brasileira em seus rocks com decisão e personalidade. Algo longe do que parece ser a regra do circuito independente atual. No caso específico do Gilbertos, eles conseguem equilibrar, sabe-se lá como, rock pesado, experimentalismo e pop, vertentes aparentemente antagônicas. Vale destacar também a percussão poderosa e as letras bem elaboradas.


O vocalista João Angelini conversou comigo pela net e falou um pouco sobre a atual cena independente brasileira e o bom momento vivido pela banda, que vem sendo bastante elogiada em shows pelo Brasil e começa a conquistar seu espaço no cenário nacional com dignidade, coragem e competência profissional.



Cara, o Gilbertos tem tocado fora de Brasília com certa frequencia, como tem sido a resposta do público?

A resposta tem sido ótima. Nos últimos shows em Fortaleza, na Feira da Música, e em Goiânia, no Vaca Amarela, fomos muito bem recepcionados pela galera. A produção muito cuidadosa, e o público já esperando a gente. Roda de pogo nervosa e mosh rolando o show inteiro. Isso foi muito legal e diferente das viagens do ano passado nas quais ainda estávamos buscando terreno e público nesses locais.

Nas nossas primeiras saídas fora do DF a gente sempre foi bem recebido, e sempre teve um ótimo retorno, sempre com convites pra mais eventos. Mas o clima do show sempre era de surpresa, ninguém tinha ouvido falar da gente, sempre gostavam, mas ainda olhavam o show de forma desconfiada, analítica e deixavam de efetivamente curtir nosso som. Acho que é um caminho natural, afinal nunca tinham ouvido a Gilbertada e nosso som não segue um formato convencional. Isso faz com que a postura do publico nos primeiros shows seja ainda de avaliação. Mas depois das apresentações a gente sempre colheu muitos elogios. Esse ano retornamos a dois lugares que tocamos ano passado: Fortaleza e Goiânia. Voltamos por reconhecimento das performances do ano passado. E tocar a segunda vez nos mesmos lugares foi bem diferente. Foram as primeiras vezes que tocamos fora e não fomos uma surpresa, dessa vez a galera meio que já esperava pelo nosso som. Reconheciam e vinham falar com a gente antes do show dizendo que estavam ali pra nos ver. Durante a apresentação, principalmente em Goiânia, tinha um pequeno grupo de, mais ou menos, umas 20 pessoas que pedia música e já cantavam boa parte do nosso show. Muito legal!

Esse ano o retorno da crítica tem sido muito bom também. Estamos com o CD na mão, rodando por aí. Essas duas cidades que passamos deram esse grande retorno. Uma série de resenhas carregadas de elogios. Muito legal.

Nessas andanças, chegaram a notar alguma diferença fundamental em relação aos shows por aqui?

Bom, fica dificil traçar alguns comparativos entre esses eventos. Na minha opinião está acontecendo um certo nivelamento nesses eventos, eles estão ficando cada vez mais parecidos. Ainda não sei se isso é ruim ou legal. Acho que bons exemplos devem ser seguidos e multiplicados, mas também acho que cada evento tem que ter um diferencial, uma particularidade. A Feira de Fortaleza foi a pioneira no formato, a primeira a promover uma rodada de negócios entre bandas e produtores, gravadoras, marcas de instrumentos, etc. Há anos promove, além dos shows, uma série de debates, palestras e encontros que interessam a classe artística e empresarial da música.

Esse formato se multiplicou e esse ano, aqui no nosso Porão, tivemos essa primeira experiência com dois dias reservados pra isso. Bom demais, pois esse espaço é super importante pra fortalecer a cena independentes e diminuir a distancia entra as diferentes instâncias da rede de produção da música. Diminuir o amadorismo e colocar os músicos, produtores e publico para conversar sobre as deficiências e qualidades da cena e do mercado. Mas ainda espero que, além de seguir bons exemplos, os organizadores dos eventos tenham coragem de experimentar novos formatos em busca de relações entre música e público.

Quanto aos nossos shows, a gente é sempre muito bem recebido tanto dentro de casa como fora. Claro que tem uma diferença. Aqui nos somos só mais uma banda, somos amigos de grande parte dos que assistem nosso show, existe uma relação de intimidade e proximidade muito legal, que faz a coisa ficar mais "quente". E fora a gente fica com uma aura mais "glamourosa": somos banda de fora, já comentada e esperada pela galera, tocando em horário de banda grande (fechamos o palco de Rock na Feira da Musica, por exemplo) e óbvio que isso cria um clima, uma expectativa no público e facilita a receptividade do nosso som experimental. Isso também cria um "calor" na apresentação. É diferente tocar aqui e em outra cidade, agradavelmente diferente.

E também tem a diferença básica entre capital e cidade do interior. Nas capitais o público é acomodado, meio reticente, demora pra engatar. Numa cidade do interior as pessoas se empolgam com mais facilidade, pois têm menos chance de ver show. Fui assistir a um show em São Paulo e a galera estava sentada, contemplando. Uma amiga comentou, “lá de onde eu venho isso aqui estaria fervendo”.

A gente viveu bem esse "frever" do interior em Montes Claros (MG), ano passado, e em Inhumas (GO) esse ano.Mesmo sendo desconhecidos nos lugares, fomos recepcionados com muita energia e rolou uma pogação de numa escala surpreendente. Não é a toa que as cidades do interior hoje, protagonizam as grandes iniciativas da música independente do Brasil.


Hoje, vivemos um momento único, pela primeira vez as bandas independentes dispõem de todas as ferramentas necessárias para que não dependam mais de terceiros para mostrar seu trabalho. Mesmo assim, algumas preferem se tornar, com perdão da redundância, um produto a mais na prateleira de "produtores independentes". O que você acha que atrai artistas para algo de que eles deveriam querer se livrar de uma vez por todas?

Cara, isso é complicado demais. Um dia sentaremos só pra conversar disso, vai ser um papo longo, hehehe.

Primeiro acho que deveríamos rever o termo independente. Não acredito nisso. Acho que existe um novo sistema, que leva esse nome de independente, mas que na verdade ainda continua a estabelecer relações de dependência entre os artistas e os novos empresários. Claro que existe em alguns casos uma espécie de acúmulo de funções, onde a própria banda ou artista é também o empresário, o produtor, o dono do selo, do coletivo, etc. Isso gera uma certa independência, pois não existe mais um mediador entre o artista e o público. Mas são poucos os casos desses "artistas-empresas". Nas artes visuais isso é mais comum. O marchand praticamente não existe mais, o próprio artista vende o seu trabalho, assume a postura de empresário da arte paralela ao papel de artista. Seria muito bom que mais bandas tomassem essa postura também, dependendo menos de terceiros.

Mas esse artista-empresário não é resultado das novas tecnologias, dos acessos mais baratos e generalizados. É uma questão de postura. Esse papo de que a tecnologia diminuiu a distancia entre público e artista é muito delicada. Porque de um lado é verdade que seu som, vídeo, texto ou foto está na internet pra quem quiser ver. Por esse lado a coisa realmente facilitou o acesso. Mas temos que pensar também em como esse seu produto que está acessível circula, em como o público chega até o seu produto exposto. Assim como existe o seu trabalho, existe o de mais um bilhão de outras pessoas, todos se acotovelando. Pra se destacar nessa multidão, a dependência dos meios oficiais ainda é enorme.

Ter um material na net não significa que ele vá ser visto e consumido. Aí que vemos que a coisa que é anunciada como a “revolução” na verdade não mudou tanto as velhas relações e o poder institucional de alguma marcas. Um vídeo, música ou texto, só vai ter um milhão de acessos se for divulgada por algum meio com mais poder e credibilidade. E essa história é perigosa demais. Porque serve de poder de sedução para artistas carregarem suas criações em sites como MySpace e YouTube na ingênua expectativa de terem visibilidade. Com isso abastecem essas empresas com produtos de qualidade gratuitamente, onde só quem lucra são essas empresas. Acho isso tudo muito errado, empresas como MySpace e YouTube lucrando milhões em cima do trabalho gratuito dos artistas. Qual banda ficou famosa só por esses recursos? As que aparecem na mídia como fenômenos da internet são em sua maioria falsas, fachadas. Na verdade sempre tem um empresário por trás injetando muita grana e influência, pra ter boas resenhas em blogs especializados de críticos já reconhecidos, pra ter tempo em matérias de jornais, pra ter entrevista em horário nobre, pra terem seus produtos indicados em premiações e tal. Depois disso, é claro que seu MySpace vai bombar!



Vejo isso bem claramente no MySpace do Gilbertos. A gente tem uma média de 30 audições de nossas músicas por dia. Quando temos nosso nome veiculado à divulgação de eventos que já têm muita mídia e espaço (como o Porão do Rock) os números sobem pra 250, 300 audições por dia. Isso é muito sintomático e confuso! Porque ao mesmo tempo em que é a força institucional do Porão que eleva o acesso, é também esse espaço, o MySpace que permite essa visualização. Acho que devemos usar isso tudo como ferramenta associada a mil outras ações, porque só pelos novos espaços, sem depender de outras ações, as únicas pessoas que lucrarão com o MySpace e o YouTube são seus respectivos donos.

Por não acreditar nessa independência, acredito que a relação dentro dessa cadeia é sempre pela busca da melhor posição na prateleira de produtos, sejam os novos festivais ou os velhos jornais e revistas.

Voltando aos shows. E o disco? já cantam as músicas nos shows, a bolachinha tem tido boa saída?

O disco vai bem. Inclusive tem um aqui guardado te esperando... AHehaehaehEAHEA (Nota do RckBsb64: O Evandro Esfolando também me deu um cutucão pela minha enrolação para comparecer a eventos, hehehe).

Temos muito orgulho do resultado estético e sonoro, e a gente conseguiu vender um número significativo pra inserção que o Gilbertos Come Bacon tem. Ainda não temos o primeiro relatório de vendas dos CDs e vendas pela net. Mas só da nossa mão já fora vendidos aproximadamente 300 cópias em menos de 4 meses.

Mas o mais importante do disco é o poder institucional que essa “mídia em declínio” ainda tem. A banda se apresenta com mais credibilidade. Infelizmente, o sistema ainda cresce o olho nessas coisas e dá pra sentir a diferença de tratamento que temos antes e depois do CD por parte de vários produtores pelo Brasil.

Quanto a galera cantar as músicas, aqui em Brasília já vem rolando tem um tempo. Principalmente as músicas que já tinham versões ao vivo de ensaio no MySpace. Em Fortaleza e, principalmente em Goiânia, tinha um pessoal que tava pedindo músicas (como Piolho, Minha Casa e as versões de Babau do Pandeiro). Cantavam as músicas e vários refrões. Sem contar as rodas de pogo e mosh!

Agora no final do ano vamos divulgar o disco e tocar no festival Demo Sul, em Londrina. Pra gente vai ser bacana fazer uma divulgação em uma região na qual ainda não tocamos, faz parte do nosso projeto, colocar o CD pra rodar em todas as regiões do país, juntamente com o nosso show. A Gilbertada vai e leva disquinhos e produtos de bacon junto!

Mas, pelo menos pra gente, tem uma grande diferença entre o show e o disco. Temos muito orgulho do resultado do disco, mas a empolgação do show é o nosso forte. No disco a gente pôde brincar com os arranjos, inventar, fazer novas coisas. Mas nada substitui a graça de um show.


E na net, quando vão liberar o download gratuito? Já teve gente reclamando por eu não postar por aqui, hahahaha.

Vixe!

Esses fonogramas tem essa limitação. O selo responsável pelo CD (GRV) entende que o artista tem que ser pago sempre. A gente também acredita nisso, mas diferente, entendemos que o download gratuito é um investimento publicitário. O que acontece é que não temos controle sobre esses fonogramas. Apesar do Gilbertos Come Bacon ser uma banda 100% independente, sem vínculo nenhum com nenhuma gravadora, selo ou produtora, o nosso disquinho não tem o mesmo espaço e não nos pertence. Foi um prêmio que ganhamos no Festival Universitário promovido pela GRV no final de 2007. Apesar da banda conseguir se manter independente, não tinha como aceitar a premiação sem essa limitação com os fonogramas. Fazia parte do contrato aceitar essa parte de não deter esses direitos. Mas acho justo esse controle e essa postura da GRV, mesmo se o Gilbertos como banda acredita em posturas diferentes. Afinal, foi um prêmio que projetou a gente, que possibilitou um puta amadurecimento no processo de gravação e aprendermos a nos relacionar institucionalmente. Valeu a pena.

Mas a gente já tá preparando um disquinho novo. Esse nós ainda não sabemos como vamos gravar. Mas tá ficando lindo. Estamos bem mais maduros e fechados no nosso som. Agora temos distanciamento pra ver o produto do nosso processo experimental, que culminou no nosso 1º disco, e estamos só lapidando a estética do Rabicóre. Quanto mais a gente toca, mais fica claro pra gente que tipo de coisa tem cara de Gilbertos Come Bacon. Estamos conseguindo entender melhor nossa identidade. E esse disco a gente certamente vai botar pra geral baixar.

E antes do disco em si ficar pronto, planejamos lançar músicas avulsas no formato de single, pra garotada poder baixar se quiser e comprar no show a música física, no CD, com uma arte bacana. Conforme formos produzindo e gravando o disco, vamos “soltando” a gordura pra garotada se lambuzar.
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