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31/03/2013

Discoteca Nacional: Loucos são os outros, até duas vezes

Como todo bom gaúcho, além do churrasco e chimarrão, a música regionalista sempre foi um dos grandes trunfos deste que vos escreve. Seja por influência paterna ou ou só pelo simples fato de cantarolar
"Deu pra ti/baixo astral/vou pra Porto Alegre, tchau" (daquela dupla que todo mundo dizia ser meus pais, Kleiton & Kledir) e matar a saudade da capital riograndense.


Fato é que, pela primeira vez na história deste país (eu sei que você já ouviu isso um milhão de vezes, enfim!), a produção do rock gaúcho apresentou suas influências locais, regionais e internacionais reunidas em um só bendito long play, sabiamente chamado de Coisa de Louco II.

O álbum teve uma repercussão muito positiva e saiu de catálogo tão logo entrou, tornou-se raridade muito por conta da estrutura do selo Banguela, que naquele ano, 1995, mais se preocupava em lançar bandas interessantes do que trabalhar os lançamentos, muitos ficaram apenas na tiragem inicial. Isto para a Graforréia Xilarmônica foi bastante prejudicial, afinal a banda já era um nome conhecido no Rio Grande do Sul e mesmo no underground brasileiro. O projeto gráfico de “Coisa de Louco II” é bastante trabalhado e traz fotos da banda, todas as letras e ficha técnica.

É hora de descobrir os encantos que essa mistura da chinelagem adquirida com supra-sumo concentrado e aperfeiçoado disseminada psicodelicamente em papeletes de jovem guarda underground cuidadosamente mesclada com música regionalista gaúcha e pitadas de rock'n roll gringo dos anos sessenta.

Com 18 faixas, a banda que hoje faz cover de si mesma trouxe uma experiência única na vida deste jovem mequetrefe:  um disco que não cansa de tocar na minha vitrola. Só fico preocupado com o fato de, se
ele realmente gastar, como vou encontrar outro, já que está esgotado nas lojas? Acho que preciso me agilizar e providenciar uma cópia de segurança e uma outra em arquivos .flac/mp3 e o caramba por garantia.

Formada por Frank Jorge, Marcelo Birck e Alexandre "Ograndi" Birck em 1987, A Graforréia Xilarmônica tornou-se cult em Porto Alegre em função de uma fita demo lançada em 1988 chamada “Com Amor, Muito Carinho”. As guitarras cacarejadas de Carlo Pianta dão o charme necessário para se fazer a musica atonal também proposta pelo grupo.

Eis que chega, "Literatura Brasileira". Já de cara, Mutley faça alguma coisa e Slave to Love de Bryan Ferry se misturam numa crítica ferrenha aos bananas que escrevem livros de auto-ajuda e afins e tem cadeira cativa na Acadêmia de Letras Brasileira (Pasmem! Até o Sarney está lá! Isso explica muita coisa!).  Ok. Depois de raios duplos e triplos, logo começam as linhas de baixo de "Bagaceiro Chinelão", a narrativa
de um pedinte e a burguesia portoalegrense judaico-mão-de-vaca.  O hit "Você foi Embora", que acabou virando videoclip e tocou bastante na MTV Brasil, coisa meio que miraculosa para uma banda como a Graforréia.

As desventuras da vida a dois e as aflições amorosas como as do Sofrimentos do Jovem Werther de Goethe, estão presentes em todas as partes do disco, sejam elas "Tive Teu nome", "Grito de Tarzan", "Empregada"( você ainda vai repetir: "“Raú Ped'i Lara” pelos alto-falantes da cidade!) , "Minha Picardia", "Patê", "Denis", "Nunca diga" e "Se arrependimento matasse" e "Se você não quis".

Até os Bitous foram lembrados em uma das mais engraçadas sagas adolescentes já presenciadas: Twist é a prova-viva da depressão juvenil bem humorada. Falando em Fab-Four, mais especificamente em George Harrison, a enigmática "Hare" traz o clima intimista ao disco.

Benga velha Companheira é o começo de uma trilogia proposta pela gurizada que conta a fatídica história de um  bon-vivant em suas andanças pelo mundo.

Parem as máquinas. É hora do segundo hino oficial da república riograndense. Ah! parem com essa onda de bairrismo e sejam agraciados com o mezzo milonga mezzo tradicionalismo escancaradamente cômico
traduzido em versos como " O meu destino é Woodstock mas eu chego". Simplesmente sensacional. E viciante! Amigo Punk.

Para fechar com chave de ouro, os tchês fazem um convite um tanto perigoso em tempos de assaltos: (Vamos para o) "Rancho" traz o clima gostoso do interior. O único problema é que além de ti como convidado, tu tem a Xuxa e o Bonamigo na mesma festa. Seja bom ou ruim,  pelo menos tem pizza e limonada! Sim oh! Yes! Meu amor,coração!

A curta discografia da Graforréia Xilarmônica é uma ofensa a criatividade da banda e a boa discografia do rock nacional. “Coisa de Louco II” é um álbum imperdível, pelo menos não tem firulas e nem virtuoses. É simples e direto como todo disco deveria ser e como a gente sempre quis que fosse.

A curiosidade matou o gato!

02/08/2011

Discoteca Nacional: Titanomaquia (1993)

por Rafael Lamim*

Logo no início dos anos 1990, as guitarras distorcidas e pesadas do grunge de Seattle ditaram o padrão do mercado do rock internacional. Já o rock brasileiro, era ainda representado por bandas dos 1980 que não acompanhavam a demanda por rock pesado que já existia por aqui. Uma crise de identidade pairava sobre aquelas bandas, que estavam com muito mais jeito de ressaca do boom oitentista do que de bandas que ainda tinham lenha pra queimar.

Nesse contexto, o que esperar de um novo album do Titãs? A banda havia perdido o Arnaldo Antunes logo após o lançamento do disco anterior (Tudo ao mesmo tempo agora, de 1991). Também abandonou a parceria de anos com o produtor Liminha (responsável por seus melhores discos até então) e investiu no americano Jack Endino, que tinha produzido o primeiro disco do Nirvana, "Bleach", de 1989, além de ter trabalhado com  Mudhoney e Soundgarden.

Titanomaquia saiu em 1993. Estrapolando tudo o que fora insinuado em Tudo ao mesmo tempo..., a banda aparece ainda mais visceral que o disco anterior.

Os vinis chegavam às lojas embalados em plásticos pretos, semelhantes a sacos de lixo - uma ironia de brinde para os críticos que assim haviam qualificado o disco anterior. Na capa, recortes de cores e retangulos desinteressantes.

Esse desdém com a crítica aparece logo nos primeiros versos de Nem sempre se pode ser deus ("Não é que eu me sinto mal / Eu posso fazer igual / Não é que eu vá fazer igual/ eu vou fazer pior"). Se é desdém ou mágoa é outra história. Mas foi bem canalizado na agressividade desse trabalho.

Disco vinha embalado em "saco de lixo"
Os ataques e ironias seguem em "Será que é isso que eu necessito". Afinal, quem é que precisa tomar cuidado com o que diz? Branco Mello se sente em casa nas paranóicas "De Olhos Fechados" e em "A Verdadeira Mary Poppins". Já Paulo Miklos narra uma obsessão doentia em Taxidermia, que também virou single. O trabalho dos dois guitarristas, Tony Belotto e Marcelo Fromer, é excepcional e demonstra o quanto a banda soube se adaptar para executar sua proposta sonora. Tudo soa sujo e porco, com vários espaços preenchidos por microfonias e distorção.

O baterista Charles Gavin supera todos os trabalhos anteriores, destaque para "Agonizando" e "Estados Alterados da Mente". Aliás, é legal lembrar que ambas tratam de drogas, um tema que até então era pouco abordado pelo grupo. "Dissertação do Papa seguida de Orgia" talvez seja a temática mais pesada, na qual apenas é narrado um texto de Marques de Sade, no qual são citadas atrocidades cometidas pela cultura humanas e pelo cristianismo.

Muitos sentiram a ausência do Arnaldo Antunes (que participa com algumas letras, como "Disneylandia"). Outro que pouco aparece no disco é o baixista Nando Reis, que começava o seu trabalho como compositor de MPB e já compunha para artistas como Marisa Monte e Cassia Eller. Em "Titanomaquia", Nando canta apenas "Hereditário", que junto de "Tempo pra Gastar" parece meio fora de lugar no disco.

Titanomaquia, cujo nome vem de um episódio da mitologia grega que narra a luta entre titãs e deuses do Olimpo, é um excelente registro de que algumas bandas brasileiras dos anos 1980 e 1990 só não foram verdadeiros grupos de rock, de padrão internacional, porque não quiseram.

* Rafael Lamim é vocalista e guitarrista da banda brasiliense de rock pauleira e maldade, Enema Noise

17/05/2011

Discoteca Nacional: 23 anos de Psicoacústica

por Paulo Marchetti

Hoje (11/05), o mundo lembra dos 30 anos da morte do pai do reggae Bob Marley. Nada mais justo. Adoro BM, aliás, reggae pra mim é só Bob Marley.

Mas aqui lembro dos 23 anos de lançamento do maravilhoso, estupendo, inacreditável e importanticississiwissímo Psicoacústica, terceiro disco do Ira! , lançado exatamente em 11 de maio de 1988.

Psicoacústica é daqueles discos que serão eternamente atuais. Até a capa é em 3D!!!!! Eu sou bastante suspeito para falar desse disco que é cheio de detalhes curiosos e que é um dos responsáveis pela mudança de comportamento (!!!) no cenário musical da época. 


Infelizmente o Ira! acabou, porque Psicoacústica poderia muito bem ser homenageado em um show com o disco inteiro sendo executado....

Para entender um pouco do contexto da época de seu lançamento, leia também o post do blog Sete doses de cachaça, Quando Tudo Mudou.

Nessa singela homenagem, resgato duas críticas do disco publicadas na época de seu lançamento: uma da revista Veja e outra da Folha de São Paulo de pré-lançamento. Sugiro também ler a reportagem e crítica escrita por Thales da Menezes na Folha de São Paulo, caderno Ilustrada, do dia 11-05-1988. É só acessar o acervo digital da FSP.

Músicas
1 – Rubro Zorro
2 – Manhãs de Domingo
3 – Poder, Sorriso, Fama
4 – Receita Para Se Fazer Um Herói
5 – Pegue Essa Arma
6 – Farto do Rock’n’Roll
7 – Advogado do Diabo
8 – Mesmo Distante

Drops Efemérides do Rock Brasileiro: Nesse mesmo 11 de maio de 1988, foi lançado Trashland (EMI), segundo disco da Mercenárias, produzido por Edgard Scandurra.


Revista Veja – 25/05/1988 (edição 1029, página 127)

Caixa de Música
Bons LPs de Maria Bethânia, Cazuza e Ira!

Psicoacústica, Ira! – Em seu terceiro LP, o quarteto paulista Ira! Consegue a proeza de se manter original no rock brasileiro. O segredo do grupo, além da atuação competente dos instrumentistas, é buscar referências num escaninho da história da música pop hoje esquecido por todos os grupos – o rock inglês do comecinho dos anos 60, anterior a explosão dos Beatles, dos cabelos longos e do psicodelismo. Esse rock era executado pelos mods, rapazes até certo ponto bem-comportados, que se vestiam no rigor da moda e carregavam suas músicas de ironia.


Em Psicoacústica, o clima das letras e pesado – os versos falam de crimes, tiros pelas costas, castigo, farsas e perigo. Em contrapartida, a maioria das canções tem melodia fáceis e alegres. Esse contraste empresta as faixas Poder, Sorriso, Fama e Receita Para Se Fazer Um Herói um clima de dubiedadee de sarcasmo que dá ao grupo a sua marca. Psisicoacústica, de maneira coerente com as influências do grupo, recupera também um brincadeira típica do final dos anos 50 – o dos óculos em 3D. Cada disco vem acompanhado de um par deles, necessário para se decifrar o desenho tridimensional da capa e do selo do LP.


Folha de São Paulo, caderno Ilustrada, 04/11/1988
Da reportagem local

Psicoacústica é uma coisa sutil: trata-se de aproveitar um disparo no começo da fita ou um resto de canção que ficou registrado em baixo da versão final. Pode ser um acidente, um canal que não foi usado e saiu na mixagem final, ou “a rodada de lâmpada acidental”. A partir das próximas semanas, “Psicoacústica” vai ser mesmo o nome do terceiro LP do grupo Ira! Que, segundo o guitarrista Edgar (sic) Scandurra, está pronto sem “ nenhuma faixa com apelo pop muito forte”.




O repertório total é composto por oito canções. “Pegue essa arma” já está tocando nas FMs alternativas. Edgar (sic), 26, explica que “Psicoacústica” foi uma palavra inventada pelos quatro integrantes do grupo depois das gravações. “A gente colocou detalhes que não iriam sair nos arranjos iniciais e quase todos eram incidentais”.

Como a introdução de “Fato do Rock’n’Roll” (sic): o som de um ricochete é na verdade o ruído da fita quando alguém apertou o botão “play”. Ou então o final de “Manhãs de Domingo”: a música acaba utilizando um trecho da primeiragravação que fizemos. A gente tinha gravado a versão final em cima da anterior e, quando fomos ouvir, tinha um trecho final ainda registrado e ele era legal. Então unimos”, explicou Scandurra.

Esses detalhes “tão pequenos” de “Psicoacústica” deixam Edgar (sic) ansioso com o novo trabalho. É o primeiro produzido só pela banda, sem os toques de Peninha Schmidt ou Peninha. “Ficamos mais livres”, disse os guitarrista. Ele disse que perdeu a fita com o registro final e garante estar “com saudade de ouvir de novo”. (LB)
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