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24/04/2010

50 anos: AGORA? ou pra VIAGEM

Programa Agora? Ou para viagem, produzido pelo pessoal do Móveis Coloniais de Acaju. Bela edição em homenagem aos 50 anos de Brasília. Trilha sonora e entrevistados muito bem escolhidos.

Depoimentos de Dado Villa-lobos (Legião Urbana), Natinho Dente-de-Ouro, Rafinha (Bois de Gerião), integrantes do Coletivo Esquina e de bandas atuais. Um apanhado geral do rock produzido em Brasília que ficou bem bacana. Postado originalmente no blog dos Móveis, onde tem também links para baixar as bandas que entraram na trilha sonora.

19/04/2010

Outros 50, Brasília, outros 50

Outros 50. Esse foi o tema escolhido pelos organizadores da comemoração alternativa dos 50 anos de Brasília. Idealizado pelo Fórum de Cultura do Distrito Federal, com apoio do ministério da Cultura, a festa terá a participação de mais de mil artistas e bandas locais. Além da música, o evento que acontece entre os dias 20 e 23 no Complexo Cultural da Funarte, terá também oficinas, exposições e mostra de audiovisuais.

Entre as bandas, algumas das principais da atualidade como Lucy and the Popsonics, Trampa, Gilbertos Come Bacon e Móveis Coloniais de Acaju. Eles dividirão o palco com bandas veteranas como Os Cabeloduro, DFC e Detrito Federal e com novatas como ElectroDomesticks e Brown-Há, entre outras. Uma programação bem variada que conta com bandas de estilos diversos, do grindpsicodélico do Galinha Preta até o som bicho-grilo da setentista Liga Tripa. (Veja a programação completa aqui)

E a comemoração oficial? Aquela que o Arruda dizia que entraria para a história da cidade e para a qual chegaram a cogitar nomes como U2, Paul McCartney e Beyoncé. Pois então, depois de Arruda ir para a cadeia e Paulo Octávio renunciar, a festa quase foi cancelada, mas acabou confirmada. E na Esplanada, no dia 21, haverá apresentação de atrações locais renomadas como Plebe Rude e Raimundos, revivals como o do Mel da Terra e show dos padrinhos do rock brasiliense, os Paralamas do Sucesso. Além de atrações, digamos, mais “populares”.

Que o aniversário de Brasília represente o início de um novo tempo. É ano eleitoral, época de conscientização, é quando aparece a oportunidade de varrer os corruptos para fora da política. Que seja mesmo o início de outros 50 anos. Como diz o hino popular da cidade, “Desperta o gigante brasileiro/desperta e proclama ao mundo inteiro/num brado de orgulho e confiança/nasceu a linda Brasília, a Capital da Esperança”. E que venham outros 50.

04/04/2010

Série 50 anos: 6. Meninos, eu vi - parte 2 (1990s)

(leia a primeira parte aqui)

por Zeca Domingos

Eu sei que eu já falei um pouco dos anos 1990, mas alguns detalhes, como o link deles com o início do século 21, são bem importantes e não poderiam ser esquecidos.

Como eu disse em meu último post, toquei em algumas bandas do cenário daquela década, e tive oportunidades únicas: Na época em que toquei com o Succulent Fly, o Anderson (vocal) junto com o Vítor – da primeira grande produtora de shows desta cidade a Look Like Produções, alguém se lembra? Eles trouxeram o Fugazi para tocar no Teatro Garagem, com a nossa banda de abertura.

Bandas de rock, para mim, são locais de aprendizagem. Sério, sem demagogia. Se você me perguntar sobre uma banda, pergunte o que aprendi que eu lhe conto. Com o Succulent Fly eu aprendi, por exemplo, que uma banda que quer tocar faz o seu próprio show, arma o seu próprio esquema. Aliás, isto ocorria também com os Animais dos Espelhos e com o Divine – esta última trouxe pra tocar em Brasília, o Superchunk, Fellini e Luna.

Ainda no primeiro lustro dos anos noventa (que chique! Lustro = 1/2 década! -  NE.: Zeca, isso me lembra que tanto eu quanto vc tivemos uma banda chamada Cultura Inútil, hehehe) O rock de Brasília pós-Legião mostrava sua cara. Neste sentido a Rádio Cultura FM e seus programas – Cult 22 e Ideia Nova – serviram, e muito, para a manutenção da cena rock daquela época. Na verdade, tínhamos um espaço de circulação de idéias bem legal: rádios, jornais (suplementos semanais e a ousadíssima iniciativa do jornal Via-Skalla, especializadíssimo em rock ) e ainda os fanzines que tinham sua força, como o Tupanzine do Ricardo Tubá do Guará, o do Claúdio Bull e tantos outros.

Naquela mesma época tiveram vários grandes shows, e participei de alguns deles: Burning Garage e o show do Second Come – ambos produzidos pela Look Like e com participação das guitar bands ( eu mesmo não gostava muito desde rótulo, mas vá lá...): Animais dos Espelhos, Oz, Sunburst e Low Dream. Este mesmo grupo de bandas tocou algumas vezes no Guará no Lord Dim Pub, um espaço alternativo lá daqueles lados.

Ainda neste tema, é necessário lembrar do cassete coletânea Cult Cover Demo. Projeto originalíssimo da Cultura FM que reuniu as bandas mais significativas naquele momento e cada uma gravou um cover inusitado. O resultado foi interessantíssimo: DFC tocando Boys dont Cry; Little Quail tocando o tema de Stock Car e outras loucuras superlegais. O show de lançamento foi uma celebração com todas as bandas no Teatro Garagem entupido de gente, numa combinação louca: Guitar bands juntos com bandas de HC, metal e o Mata Hari! Foi um festival de moshs.

O rock em Brasília e no Brasil estava numa rota impossível. Em relação aos anos 1980, o cenário era promissor. Já rolava um intercâmbio de bandas - algumas que nem mais existem, mas que tiveram a função fundamental de trocar figurinhas com as bandas locais. Algumas iniciativas empresariais apostaram no rock. Vide o caso do Bronx, uma estrutura feita única e exclusivamente para shows; casas como o Sindicato e São Rock feitas especificamente para o público rocker.

A MTV, naquele momento, era um grande veículo de informação, solapando as fontes tradicionais – revistas, zines e mesmo as rádios estatais. Nesse contexto, a Cultura FM continuou atuante, mas com uma importância menor, mas ainda assim imprescindível até hoje. O advento da MTV ocorreu junto com uma série de coisas juntas. Eu defendo a tese que com a MTV nós começamos a tornar o rock nacional, de fato, nacional. Note que uma das tendências daquele momento eram os sons regionalizados com uma roupagem moderna e sofisticada – tais como Chico Science e Nação Zumbi, o álbum Roots do Sepultura e mesmo o primeiro dos Raimundos.

Isto aconteceu também, pela troca de informações entre as bandas, que ocorria, via shows ou via mídia. Meio que padronizamos a forma de fazer som – equipamentos e tal. Mas ainda assim, se manteve a originalidade de cada cidade, pois a especificidade de cada uma delas acaba sendo determinante para o seu tipo de produção. Tanto é que as grandes bandas daquele momento, foram as grandes bandas da MTV: Raimundos, Little Quail, Maskavo Roots. Bandas poderosas que tiveram a seu favor a estrutura da mídia como nunca antes. Ainda bem!

Esta padronização acabou descambando em estruturas como a Abrafin. Na virada do século, festivais do tamanho do Porão do Rock já faziam parte do calendário cultural de grandes cidades brasileiras. Um sonho que se tornou realidade. Como também se tornou real o sonho também de tocar no exeterior. Muitas bandas tocam mais lá do que aqui, sem que necessariamente tenham que se mudar para lá: viva a globalização.

Neste segundo momento da década de 1990, eu estive em três bandas: Câmbio Negro, Succulent Fly e, finalmente, Divine – até o encerramento da banda, no início do século 21. Em todos os grupos, tive a oportunidade de desfrutar bons momentos, alguns deles dignos da história da cidade e outros dignos somente de minha vida: Primeira Calourada da UnB10 mil pessoas tocando em casa! As já citadas aberturas para bandas gringas, Porão do Rock com os Divinos e 65 mil pessoas, e no Porão do Rock como DJ pra não sei quantas mil pessoas.

Alguns dos nossos ficaram no meio do caminho. E muitos ainda irão ficar. E merecem ser lembrados: Fejão (sem dúvida um dos mais originais guitarristas da cidade. Não o conheci pessoalmente, mas um texto sobre rock de Bsb sem ele, convenhamos....), Renato Russo e Cássia Eller. E a querida ex-baterista dos Flies, Berila.

18/03/2010

Série 50 anos: 4. E o DF criou o Punk... (1980s)

É engraçado, mas quem me apresentou ao punk rock foi o rock brasiliense. Pra ser mais específico, foi o Detrito Federal. Eu tinha uns onze anos e jogava no mesmo time de futebol de moleques que o Gabriel Thomaz. Ele era um pouco mais velho e já tinha uma discoteca considerável. O pai dele tinha uma loja de discos no Rio de Janeiro e abastecia o filho em Brasília com clássicos e lançamentos.

Nas duas prateleiras cheias de LPs que o Gabriel tinha em casa, era possível encontrar desde o primeiro compacto do Ultraje a Rigor, ainda com o Edgar Scandurra até o É proibido fumar, do Roberto Carlos. Clássicos como o Álbum Branco dos Beatles dividiam espaço com lançamentos como Devo. Coisas obscuras como XMal Deutchland , Einstürzende Neubauten ou X compartilhavam a companhia de futuros clássicos como Rocket to Russia dos Ramones ou Give 'Em Enough Rope, do Clash, discos lançados menos de 10 anos antes. Era 1984.

Eu já era um pequeno consumidor de rock, algo que numa época em que não havia internet para se baixar músicas e os discos não eram das coisas mais baratas para se pedir quando se é tão novo, o jeito era pedir uns dois discos de aniversário e passar um bom tempo da vida gravando fitas e mais fitas. O bom era que encontrar bons rocks nas rádios não era tão raro como hoje, bastava um pouco de paciência e devoção pra se gravar umas fitas de 60 min só com bandas bacanas.

Eu tinha muita coisa da Plebe, Legião, Ira e outras bandas “grandes” na época. Mas, os acordes da música Desempregado e os primeiros versos: “Eu não pago água, eu não pago luz, eu não pago telefone, eu não pago gás” me causaram uma sensação que ainda não havia experimentado. Pela primeira vez eu percebi que “fazer uma banda” não era algo tão complicado assim. Naquele momento, fui picado pela mosca do punk rock e nunca mais fui o mesmo.

Na primeira oportunidade, comprei uma fita de 90 minutos, Basf, de cromo. Fui até a casa do Gabriel e pedi pra ele gravar o Detrito do disco Rumores e outras bandas “Punks que nem o Detrito Federal”. Saí de lá com noventa minutos de punk rock. Sex Pistols, Ramones, Clash (não gostei na época, fui aprender a gostar mais tarde), Replicantes, Cólera, Dead Kennedys, Camisa de Vênus....

Na minha insignificante história de vida não houve CBGB ou Londres. O punk surgiu em Brasília e o Sex Pistols foi o Detrito Federal. E eu podia fazer uma banda... (continua)

09/03/2010

Série 50 anos: 2. Meninos, eu vi (1990s)


Por Zeca Domingos

Este texto vai ser meio difícil de fazer: É relativamente fácil falar de outras bandas, mesmo das que eu já toquei. Outra coisa é falar de mim mesmo como se fosse uma reportagem. Vou tentar, já sabendo que é um jogo perdido. Por que tentar? Ora, quem não gosta de falar de si mesmo? E, querem saber? Pode soar convencimento de minha parte e não estou nem aí. Caras,  tenho quase 40 anos e, convenhamos, já passei do tempo de falsa modéstia; quando você tem 15 anos, nego te pergunta se você toca baixo e tu diz assim eu tento ou estou aprendendo olhando pro chão e rindo sem graça; quando te perguntam de sua banda, você diz algo do tipo, ‘toco com uns amigos aí e tal’; se você é novo nas pistas, fica também sem graça de dizer o seu nome de DJ, ou pior, esconde-se em nomes ridículos que mal duram um fim de semana.

E, sério mesmo, não é convencimento. Mas sim orgulho de fazer parte – mesmo que mínima – desta história louca que é construir parte de uma cultura, de uma cidade ‘sem tradições próprias’ que, para desespero de muitos, está completando 50 anos e derrubando os rótulos conservadores através dos tempos.

Na década de 60, éramos uma utopia. E a cidade tornou-se um fato incontestável. Na década de 70 tornamo-nos capital da malfadada ditadura, capital do Poder; na década seguinte, reinventamos o rock brasileiro e ajudamos a pôr a ditadura abaixo. O próprio rock acusava a cidade de ser um tédio; acabamos com ele na década de 90 com nossas festas. E, a fazenda asfaltada que teria 500 mil habitantes no ano 2000 é, agora, próximo do término da primeira década do século 21, a terceira metrópole do país.

A parte na qual integro – que, ainda bem, ainda tenho muito para fazer por esta história – passa pelos últimos 30 anos, mais da metade do tempo de vida  de minha cidade: sempre público e artista. Os anos 80 me ensinaram que um astro de rock não é intocável, ele está do seu lado e, aliás pode até ser você  (Desde aquela época nunca tive medo de artistas.  Aliás, desprezo profundamente caras da cena que ‘se acham’ ícones intocáveis. De onde eu venho, meu caro, isto não existe).  Me lembro do Dinho falando que nós poderíamos montar uma banda, no mesmo show em que o Capital afirmava que iria soltar bombas no Congresso. Naquele mesmo show a Plebe apresentou o melhor disco da década de 1980, ao vivo e a cores. E a cidade mal tinha completado 25 anos.

Ainda nos anos 80, rolavam os shows nas tardes de domingo no Parque da Cidade: Lá eu conheci um insulto ao sistema chamado Filhos de Mengele, no mesmo palco que a Cássia Eller e os super eletrônicos Tonton Macoutes. É possível imaginar isto hoje em dia? Eu veria mesmo o grupo  - que era uma referência a guarda pessoal do presidente haitiano – em um festival na UnB de cultura latino-americana em 1989 e ficaria catatônico por 3 dias.

Quem não é músico tem uma percepção diferente de nós. Não nos entendem. As pessoas não sabem a sensação de poder que passa por dentro da gente antes de um show começar, quando você dá a primeira porrada no baixo, num bom amplificador. Toda aquela gente esperando você fazer algo...As vezes me sentia como nos gibis. Eu só fui entender isto quando li Love and Rockets em 1990. Lembro que no dia 13 de maio de 1988, centenário da Abolição, que o Movimento Negro está fazendo questão de esquecer, teve um show na ciclovia do Lago Norte. Cheguei com alguns amigos, tinha eu uns 17 anos, não podia ir ao Gilbertinho (ouvia falar que lá as coisas aconteciam), mas estava todo de preto. Caralho, todo mundo olhava pra gente como se fossemos entidades de um outro mundo. Aí o Detrito Federal passou o som tocando Rock and Roll do Led Zeppellin. Que peso. Aquele bumbo da Débora pesava muito. Lindo. Eu só fui entender isto no meu primeiro show com equipamento que prestava, na inauguração das obras do Galpãozinho em 1989. Sentei na bateria e pisei no bumbo e ouvi aquele puta som tremendo o palco e me assustando. Pombas, a minha bateria de ensaio eram dois banquinhos de couro. E tipo uns três anos depois do Capital Inicial no Congresso, eu estava posando de artista.

A primeira banda que toquei não fez shows. E não precisava. O simples fato de conseguirmos tocar algo que havíamos pensado fazia bem para nossas cabeças. É um clichê, mas o rock é mesmo uma droga. Uma descarga de energia que você sempre quer provar e sempre quer provar mais. Primeiro, os ensaios, depois os shows, as gravações. E tudo vai tomando proporções cada vez maiores. De repente, você está tocando pra quase 70 mil pessoas num megafestival. E você não quer parar. Uma vez, o Claudio Bull (vocalista da Divine) me perguntou se eu tinha medo do sucesso. Eu disse ( proféticamente, aliás ) que tinha medo mesmo era de voltar com o rabo entre as pernas para UnB. O sucesso não me apavorava.
Mas eu estou perdendo o timing. ‘Brasilia, 50 anos, meninos eu vi...’,  vamos aos anos 90.

Sentencio: qualquer narrativa sobre o rock de Brasília que fale dos anos 80, 90, 00 que desconsidere o Little Quail é injusta. Simples assim. Me recordo que houve um ano – 88, 89 -  que não tinha nenhuma banda dando show, só a turma do Bacalhau. E eles saíram daqui e levaram nossas demos para todo o país, quando não existia internet nem a ideia da Abrafin. Mantiveram a ideia da Capital do Rock na ativa.

Na virada dos anos 90, a música eletrônica veio pra quebrar tudo. Assim como o Little Quail está pro rock, Cnun e Sunrise estão para a cena de festas na cidade: Escandalizaram, trouxeram novidades, quebraram preconceitos e, para o ódio dos paulistas, fizeram as primeiras Raves Mas no início daquela década, não existiam ainda fronteiras na música eletrônica. Tudo era festa: Dreams, Balakobako, Sphaera, Jungle São Rock, Sindicato, Bizzarre/Squeeze, Glasgow: rolavam todas as tendências eletrônicas e de rock pesado, que pensando hoje, nem tem como imaginar: EBM, Techno, Ministry, Body Count. Nesta época que eu comecei a discotecar. E, simplesmente, não existiam DJs de rock! Acredito que muita gente me viu tocar e pensou ‘pombas eu tenho uns discos/cds e posso fazer o mesmo que este cara’.

Na verdade, eu comecei a tocar por volta de 1994, nos períodos em que toquei baixo com os Animais dos Espelhos, Câmbio Negro, Divine, Succulent Fly, Neuras Planetóides e Bsb-H; no mesmo período que eu abri shows com o Fugazi, Superchunk, Chico Science e Nação Zumbi – na UnB!, Gabriel Pensador, Racionais e tanta gente legal.
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