Os
últimos grandes
hits do rock brasileiro foram
Mulher de Fases e
Ana Júlia. Músicas que ultrapassaram e muito a
barreira das AM, FM e dos elevadores, no Brasil inteiro. Isso foi em 1999, no século
passado.
Vários
fatores contribuíram para isso. As novidades
digitais, ou seja, as inúmeras plataformas e
formatos que
subverteram de forma inédita o nosso acesso à
música e quebraram a perna das
gravadoras. Empresas cujos executivos,
acomodados em suas fórmulas
viciadas, somente se deram conta de sua
incompetência quando o novo mundo já havia chegado, metendo o pé na
porta.
Banda de
rock, que sempre foi um
investimento de risco, se tornou
inviável. Mas, o que muita gente se esquece é de que eram essas mesmas corporações que faziam o trabalho
sujo, de enfiar a mão e os ouvidos na lama, o da
triagem.
Paralelamente a isso, começava a tomar
forma a rede de festivais
independentes, a finada
Abrafin. Ora, que maravilha! As
malditas gravadoras
capitalistas imundas foram finalmente
derrotadas. Prenunciava-se, inclusive, o fim do inescrupuloso
jabá nas rádios. Um
marco na história da música brasileira. Só que
não.
Estes
festivais, custeados com dinheiro
público, tomaram o lugar das gravadoras, que investiam seu
próprio dinheiro. A triagem, que antes tinha que buscar algo com potencial para gerar
retorno financeiro e compensar o investimento, passou para a mão das
curadorias dos festivais. Função remunerada que era rateada entre os
próprios produtores da patota, um dava a curadoria pro outro. O público passou a ser mero detalhe dentro de uma alardeada
Cadeia Produtiva. Surgia o
indie estatal.
O jabá? Sumiu nada. Tomou uma nova
forma, ainda mais
mesquinha, mais amadora. Era o jabá da
conveniência. Os festivais viraram as
vitrines para as bandas dos produtores associados da entidade, de
amigos de produtores, de irmão de produtor, do amigo do
estagiário que vai cobrir o festival pelo
jornal X. Tudo isso com muita empada, kibe, cerveja
liberada pra todo mundo nos
backstages. A festa era mais
animada nos bastidores que na frente do
palco. Pura alegria, todo mundo bêbado e feliz. O
Atacadão das Gravadoras fora substituído pelo
Feirão Indie e nós levamos as tomatadas na cabeça. Festivais que deveriam ser meio, passam a ser fim.
E esse pessoal
recebia antecipadamente os
cachês de produtor ou de curador, não precisavam nem encher seus festivais. Um empreendedorismo
risco zero. Pegavam o
dinheiro público e garantiam sua parte antes mesmo de
vender ingresso. Sem compromisso com nada além de si mesmos, uma
infinidade de bandas e artistas ruins,
arrogantes, presunçosos, foram repetidamente
superestimados pela rede de comunicação cooptada, espécie de
puxadinho das editorias de cultura de alguns jornais.
Nessa
vala comum, da qualidade
duvidosa e da completa falta de
critérios, bandas realmente
diferenciadas como
Charme Chulo ou
Superguidis acabaram não recebendo o devido reconhecimento. Outras, como
Los Porongas,
Móveis Coloniais de Acaju e
Lucy and the Popsonics conseguiram pavimentar um caminho próprio,
paralelo ao da
estrutura indie oficial. E a principal banda do período foi o
Autoramas, self-made e independente até os ossos.
Mas, foi
pouco. O prejuízo causado pela
confraria da boca-livre, ou seja, os produtores e jornalistas agregados da
finada Abrafin (e, posteriormente, do
Fora do Eixo), foi
enorme, irremediável.
Esse bando conseguiu
quebrar o vínculo
afetivo de toda uma
geração com um gênero musical. Aqueles últimos
hits nacionais, do Raimundos e Los Hermanos, tem quase
15 anos de idade. Se hoje, esse tal de
sertanejo universitário está na boca da garotada,
95% da culpa foi dessa estrutura viciada,
incompetente e cega pela própria arrogância. Que conseguiu reunir em si, o que existe de
pior no sindicalismo e o que há de mais
podre na política. E mais, estão aí
até hoje. Mais fracos, irrelevantes, mas ainda estão
comendo quietos,
farejando oportunidades.
Apesar disso ou até por isso, não deixa de ser
interessante observar que a banda que vem
lotando seus shows Brasil afora, com
público formado em esmagadora maioria pela
molecada, seja o
Raimundos. Shows
cheios, musicas cantadas em coro pela plateia, do começo ao fim. Provavelmente, será a
última a consegui-lo. O rock nacional está clinicamente
morto.