Mostrando postagens com marcador R64 Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador R64 Brasil. Mostrar todas as postagens

27/02/2014

Retornando das cinzas

Uma das tarefas mais difíceis para uma banda é a de conseguir produzir algo que não soe como uma reciclagem caricata e datada, mesmo sendo ser fortemente influenciada pela música ou estética de determinada época. Uma das melhores bandas brasileiras da primeira década dos anos 2000, a brasiliense The Pro é um bom exemplo disso.

O post punk dos 80s está no seu DNA, não só nas composições mas no âmago da concepção conceitual e filosófica da banda. Esse espírito é perfeitamente ilustrado pelo título do disco de estreia, “Isso é o fim”, de 2011. E não era blefe. A banda realmente acabou pouco tempo depois.

O vocalista Zé Roberto se mudou para Nova York, os demais integrantes seguiram em outros projetos e o The Pro virou história. Mas, agora está de volta. E pra não fugir das raízes, o retorno está sendo anunciado como uma despedida definitiva.

Para ele, a Brasília que reencontrou está menos receptiva ao inédito. “O que vemos agora são festas só com DJs e bandas covers fazendo o sucesso que os projetos autorais nunca conseguiram. Não me surpreende ver que as bandas covers são formadas pelos mesmos integrantes que formavam as bandas autorais da cidade. O que antes era só uma reunião de amigos, agora é o que recebe mais demanda do público”, e prossegue.

“Sim, isso não é só sobre as bandas, mas também sobre o público que preferiu assim e não se preocupa tanto com músicas inéditas. Tempos modernos, realidade moderna. A facilidade em conseguir música fez com que ela perdesse um pouco da magia. Vi bandas incríveis surgirem quase que ao mesmo tempo em Brasília. Fico honrado de ter feito parte dessa onda mesmo com todas as dificuldades.
Acho que o The Pro deixou sua marca e a música ficará aí pra sempre. E é a música que importa”.


O reencontro do The Pro acontece nessa sexta (28), às 23 horas, no Velvet Pub – 102 Norte, em Brasília. A banda também está presente no volume 1 da coletânea com 30 hits dos anos 2000 que você possivelmente não conhece.

18/11/2013

A arte está está nas ruas e (quase) nada vai detê-la


Depois de longas décadas sem escrever por aqui, não pude me furtar a análise dos tempos atuais. O que se observa é que hoje, as produções que visivelmente são feitas apenas como meio de lucrar através de um sistema, que não preza pela arte e sim pela saúde mercantilista, me incomodam.  

O que me motivou a escrever sobre isso? Ver tantos artistas produzindo apenas repetição. Poemas e músicas chatas, sem sentido, que não transcendem. Poemas que não dizem músicas que sempre se parecem com alguma outra por aí. Na arte pictórica então, vish. Milhões de quadros de barcos tortos com a perspectiva errada. Milhões de imagens que não dizem nada, não expressam sentimento ou pensamento, ainda que sejam só aparentes rabiscos. Concordo quando definem a arte como; Originalidade.

Será que poderíamos por a prova a arte de muitos desses que defendem a arte? Confesso que meus ouvidos andam cansados de alguns músicos por aí.  Porquê? Porque eles fazem mais e muito mais do mesmo. Reproduzem as mesmas soluções musicais, as mesmas combinações... que cansativo. Ouvir um CD inteiro é quase um martírio.  Então, depois da formação psicológica que o currículo acadêmico me proporcionou (e o tema da mono ser Musicoterapia, reinclusão de deficientes através da percepção musical) percebi que, podemos dividir estas inquietações em quatro itens:   

Excelência Técnica, Validade,Conteúdo intelectual (visão cosmológica do artista) e Integração entre conteúdo e veículo . Neste primeiro tópico já eliminaríamos grande parte do músicos e outros artistas por aí. Até bem pouco tempo, o modus operandi" era fazer tudo pelo feeling, sem estudo, na base da vontade.  Não digo que não foram feitas coisas boas. Foram sim.  Mas penso que hoje as coisas mudaram bastante e quem não tem um conhecimento mais aprofundado de sua arte, vai se repetir, vai ficar chato e cansativo.

O que se vê por aí, cada vez mais que quantidade não é sinônimo de qualidade. Ao contrário. Quanto melhor a arte mais tempo e reflexão ela pede. A produção fica reduzida.  E digo. Lá fora os artistas são monstros. Para ser ouvido, será necessário muito arroz com feijão. Talvez isso seja um tiro no pé. Sem a Excelência Técnica não diremos artisticamente nada a ninguém. Esse tempo já foi. Os caras que no passado fizeram isso, esgotaram o assunto. Se sendo bons, muitos já estão à margem. Quando digo de excelência técnica não digo só de virtuosismo. Mas também cabe a ele.    

Quanto a Validade até nem questiono tanto.  Pois os assuntos, os valores são quase sempre os mesmo abordados em toda a história. Mas valeria um comentário. Que pena que a arte sacra se foi. E que pena que não temos mais os "Rembrandts" pintando FIlhos Pródigos e Jeremias. Tentando ver a arte ainda na sacralidade. 

Com isso, vejo um problemão no próximo tópico:

Conteúdo intelectual (visão cosmológica do artista). Toda arte expressa a cosmovisão do artista. O que ele crê ? Quais as suas convicções? Não era a toa que Picasso colocava uma pessoa de perfil e ainda assim você via o olho que deveria estar escondido. Isso mostrava seu pensamento filosófico, sua visão de vida. A mesma coisa com o Salvador Dali e quase todos os grandes. Em todos os períodos, temos artistas defendendo posicionamentos, pensamentos filosóficos e etc. E eis  um grande colapso. Sobre o que diz a nossa arte? Aliás, queremos falar do quê? Penso que ainda teremos um longo caminho a percorrer antes de ousarmos responder essas questões.

O próximo tópico também é bem complicado. Como escolher a melhor maneira de dizer o que preciso se minha cosmovisão e excelência técnica estão em colapso? Com certeza este tópico será destruído, pela ausência dos valores anteriores. Pra se escolher a melhor maneira de dizer com o melhor caminho, escolhendo as melhores ferramentas; é preciso ter as ferramentas e os recursos. 

Sem conhecimento, habilidades e convicções cosmológicas, nunca se fará Arte de verdade. Serão apenas tentativas chatas de fazer alguma coisa. E o público? Aplaudiu! Meus amigos, se o artista que é o grande preocupado em estudar, se aprimorar, pensar o modo de criar, o que dizer e etc... está falhando e está em colapso, como o público conseguirá avaliar?

Porém os expectadores sim, terão  direito de usar o feeling na avaliação. Vejo que é bonito você parecer cult, assistir milhões de filmes e ver inúmeros espetáculos, assistir orquestras e etc. Essa imagem de conhecedor de Arte pode ser sim, muito falsa. E os aplausos recebidos podem ser de completos ignorantes no assunto. Por isso o critério do artista deve sobrepujar os aplausos e as palavras doces no final da apresentação. Sua arte deve estar em constante prova e a busca pela inovação e originalidade incansáveis.

Se o artista cansar de buscar a originalidade, sua arte morreu.

27/09/2013

Popdollkiller: Eu, meu walkman e minha Music Television

Em 1994, eu comprei meu primeiro walkman. Meu pai colocou algumas 80 cédulas na minha mão e disse “faça uma pesquisa e compre o que tiver o melhor custo-benefício!“. Eu achei um walkman style por 28 reais, mas a gente não pagava com reais porque ele não existia ainda. Era URV (unidade real de valor, espécie de moeda transitória), tá? Fui para casa e finalmente poderia colocar as minhas fitas K7 gravadas do Cult 22 da semana passada. A minha diversão musical da semana era escutar aquelas fitas. Sim, porque os discos dos meus pais, por melhor que fossem, não era o que eu queria mais.

Não demorou muito. Algum tempo depois, meu pai chega em casa e me fala que tinha assinado uma tv a cabo. Massa! Lembro de pegar o controle e começar a passar os canais. Eu parei na MTV e lá fiquei a tarde toda. O Kurt Cobain já tinha morrido, mas eu ainda não tinha assistido o Smells Like Teen Spirit. Pois é, no outro dia eu roubei o lápis de olho da minha mãe e fui pra escola com o olho pretinho. Meus colegas me perguntavam: nossa, o que aconteceu? Eu respondi: - Escuto rock agora!

Era sagrado. Todos os dias ligava na MTV. Tinha de tudo: rap, pop, rock, indie, disco, boy band, tudo. Era 24 horas por dia. Tinha música em qualquer horário. Era Faith no More, Smashing Pumpkings, NWA, Sepultura, Blondie, Rolling Stones, L7, Chico Science, Stone Temple Pilots, Cindy Lauper, Madonna, Michael Jackson, Beastie Boys… Eu não tinha nem terminado meu primeiro grau, mas já cantava e falava sobre música, e de todo tipo de música.

Dois anos depois, eu ganharia meu primeiro baixo e montaria minha primeira banda. Claro, era só de mulheres, tipo L7, rs. Não durou muito e meio que inspirada pelos clipes do Joy Division, NIN, resolvi montar uma banda industrial. O Pil (N.E.: marido e companheiro na banda Lucy and the Popsonics) foi guitarrista desta banda e foi nessa época que começamos a namorar.

Como se não bastasse, eu não devorava apenas a MTV Brasil. Eu tinha a MTV latina também. Eu não tinha grana para comprar discos, forma como as pessoas descobriam música na época, fora os poucos programas de rock que existiam, mas eu consumia insandecidamente música. Descobri Superchunk pelo Massari. Não lembro bem se foi o Kid Vinil quem os entrevistou no Brasil. Superchunk em Brasília foi meu primeiro show internacional, foi minha primeira invasão de camarim, para entregar minha primeira fita demo. Eles provavelmente ouviram essa fita… coitados!

Pois é… é uma coisa meio louca mesmo. Acho que nunca fui nada, mas tudo ao mesmo tempo. Tentava tocar uma coisa parecida com NIN, mas amava Prince e Gary Numan. Também ficava admirada quando assistia Sepultura, Talking Heads, Madonna, Cindy Lauper.

Ah, não se baixava música pela internet, ok?

Às vezes, você até conseguia juntar algum dinheiro que daria para pagar UM disco na Redley Records (N.E.: lendária loja de discos de Brasília). No meu caso, até fiz amizade na Discoteca 2001 do Conjunto Nacional para conseguir algumas fitas pirateadas por quem tinha acesso àqueles discos que eu tanto queria. Conseguia uma ou outra. Pode acreditar, ter um disco de rock até o início dos anos 2000 ainda era extremamente difícil. Normalmente quem tinha acesso era quem viajava para o exterior ou quem tinha amigos que viajavam. Mas nos anos 90, graças a MTV, isso mudou. Todos se lambuzavam com muita música, clipes, acústicos, informação, apresentações, entrevistas, shows....

Obrigada, minha Music Television! Obrigada, Fábio Massari, Kid Vinil, Edgard Piccoli, Astrid, Rodrigo, Marina Person, Gastão Moreira, Thunderbird, Cuca, Sabrina Parlatore! Obrigada por terem me ensinado tanto! Meu iPod agradece!

*Fernanda Popsonic é vocalista e baixista da banda Lucy and the Popsonics.

22/08/2013

O fim de uma Era

Os anos 2000 acabaram para a música brasileira. Em ruínas. Algo prenunciado desde as primeiras rachaduras que surgiram logo após a farra eleitoral de 2010.

Pra ser mais exato, no ano seguinte, quando aconteceu o cisma na antes onipresente Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes), a entidade se esfacelaria definitivamente meses depois.

Hoje, depois do novo episódio envolvendo o outro pilar da palafita indie estatal, a rede Fora do Eixo, a coisa parece que foi pra conta mesmo.

A série de denúncias iniciada após a participação do Pablo Capilé no programa Roda Viva se desdobrou em situações impensáveis há uns anos, como a de produtores outrora tão fraternais e alinhados, trocando insultos ou batendo boca em redes sociais. É a hora que ninguém aparece pra assumir a paternidade dos rumos trilhados.

Já tem um tempinho que publiquei um post sobre o que aconteceu no rock nacional durante a Era Indie Estatal.

Pois então, aquele post rendeu algumas mensagens malcriadas, e-mails boca-suja, etc. Tudo porque o título citava a morte do rock brasileiro. Ora, quem leu corretamente o que escrevi, entendeu o que foi dito. Entretanto, mesmo ali, eu apontei claramente que a causa mortis não era a falta de matéria-prima, mas a distribuição tendenciosa de artistas nesse circuito viciado de festivais que deitou e rolou durante uma década nos editais, sem entregar contrapartida social ou cultural alguma.

E foi justamente pra mostrar o outro lado dessa história, ou seja, o das bandas diferenciadas que se perderam em meio ao caldeirão dos apadrinhados, que resolvi reunir algumas delas na coletânea Nâguetz, 30 faixas ao todo.

Descubra ou relembre alguns dos hits produzidos pelo rock brasileiro na última década e que você talvez desconheça. Fique com o volume 1.


R64 Nâguetz 2000-2010 (BAIXE AQUI)

1. Eek (AL) – Contando as horas
2. Charme Chulo (PR) – Mazzaropi Incriminado
3. Prot(o) (DF) – Encarando a face do mal
4. Terminal Guadalupe (PR) – Romance Juvenil Operário
5. Lucy and the Popsonics (DF) – Coração Empacotado
6. Gonorants (DF) – Espelho dos outros
7. The Feitos (RJ) – Disco do Roberto
8. Selvagens à Procura de Lei (CE) – Mucambo Cafundó
9. Los Porongas (AC) – Lego de palavras
10. Superguidis (RS) – Não fosse o bom humor
11. Superquadra (DF) – Atlântico
12. Johnny Monster (SP) – Saudade
13. The Pro (DF) – Ana
14. Kafka Show (SP) – Em paz
15. Sociedade Bico de Luz (RS) – A musa do T2

08/08/2013

Especial: Todo esse brilho é reflexo do suor? de quem?

por Fernanda Popsonic*

Já há um tempo que alguns amigos vem me pedindo para falar sobre Pablo Capilé e o Fora do Eixo também. Resolvi há muitos anos deixar isso para lá. Afinal, não é porque eu havia tido problemas, que eu enxergava algo que não gostava, não era uma garantida de que aquilo não fosse bom realmente. Talvez fosse bom para alguém, né? Então, resolvi seguir a minha vida independentemente de qualquer coisa. Afinal, já haviamos nascido assim. Somos a geração Myspace, DIY. Já haviamos chutado um baterista e o substituído por um computador. Haviamos também gravado um disco todo em casa com um microfone de brinquedo e a guitarra desafinada ligada no computador. Nada mais seria um impedimento maior.

Eu vi o Roda Viva dessa segunda-feira. Acho sim que o mídia NINJA tem feito coisas legais e o Bruno sabia o que falava ali. Precisamos sim democratizar nossos meios de comunicação. Mas ali também vi uma organização que não conseguia explicar como era financiada. Era uma contabilidade super-mega-ultra-criativa. Isso não é intriga da oposição, coisa da Veja, do capeta pintado de roxo, golpistas, PIG ou whatever! Tem muita gente que não recebe ali. Eu já passei por isso! Já vi o Pablo Capilé também milhares de vezes pregando o fim dos caches. Artista tem de ser pedreiro! Nada contra os pedreiros, ok? Apenas acho injusto trabalhar de graça, doar trabalhos para uma organização se apresentar em meios políticos e se gabar com meu esforço e sem meu consentimento.

Mas voltando à minha história…

Sim, atrasaram cachês, ou melhor dizendo ajuda de custo. Resolvi no grito, depois fizemos as pazes e coisa e tal. Sempre que ia a Cuiabá era super bem tratada, as pessoas eram sempre super legais e já até dormi em uma Casa Fora do Eixo em um colchão jogado no chão. Sempre achei aquelas pessoas super trabalhadoras e devotas daquele serviço para cultura. Quando você pensa nisso num lugar que fica longe de muitas coisas… vc acha bem interessante. Isso te conquista.

Não preciso de mordomias. Esta não é a questão. Já dormimos em estoque de bebidas de casa de show. Já fugimos de furadas com medo de termos os rins roubados e coisa e tal, rsrs. Ninguém aqui está falando de um camarim com maçanetas de ouro e um quadro do Matisse na parede.

Não posso falar muito do Cubo Card, além dos relatos de pessoas do FDE que diziam que realmente funcionava em Cuiabá. Segundo elas, você pode estudar inglês, fazer compras no supermercado e pessoas viviam de cubo cards. Eu apenas comprei alguns refrigerantes na própria casa, hehehe. Tudo bem, o que importa é que as pessoas sejam mais felizes mesmo e se a coisa funciona é porque está cobrindo a lacuna que faltava. Pelo menos era o que parecia. Quem trabalha com artes sabe muito bem que até numa grande capital temos carências culturais sérias. O que dizer daquelas pessoas que estavam trazendo música e todo tipo de artes para sua casa e pelo menos no discurso a ideia era levar boa música para o resto do Brasil? Justo, não?

Aquilo ali era legal! O Capilé parecia ser alguém muito interessante. Aliás, a qualquer um que me perguntar até hoje eu repetirei a mesma coisa: não concordo com muitas das coisas que ele fala, prega e faz, mas o acho um cara carismático realmente.

Eu discordava de muitas coisas ali. Artistas devem ser pagos sim! Técnicos de som também! Acredito que no Brasil se inflacionam tudo, mas um cachê em reais deve ser pago. Especialmente quando o produtor recebe para fazer um evento. Eles também usam nosso nome, nossa marca, nosso esforço para chamar as pessoas, para movimentar as empresas patrocinadoras e os governos. Se deu pouca gente na casa, dá um pouco, se a Petrobras colocou muito ali, paga-se mais e por aí vai.

As bandas que circulavam… tinham qualidade musical discutível, mas eram politicamente bem articulados. Os melhores tocariam em breve com cachês muito melhores em grandes eventos já comandados pelos caciques do FDE. Eles engoliram a Abrafin. Eles engoliram muitos outros festivais, casas, coletivos, selos, pessoas que trabalhavam há tempos ou foram motivadas pelo mesmos. Mas quem colocava seu suor ali? O FDE colocava sua marca e eles vinham aqui apresentar nos ministérios, os incríveis trabalhos que estavam fazendo pelo Brasil inteiro.

Sim, se não fosse o Espaço Cubo e Fora do Eixo, TALVEZ nem saberíamos que existia alguma banda super legal no Acre ainda. Porém, tenho em mente que o FDE não produz nada. Quem fica 10 horas por dia dentro de um estúdio por um mês somos nós! Quem quase vai a loucura para conseguir fazer alguma coisa somos nós. Quem paga o nosso próprio trabalho independente somos nós, os artistas!

Não posso falar pelos produtores, mas acredito que muitos deles passem pelo mesmo ou perrengues ainda maiores. Li até um post recente do Fernando Rosa. Ele dizia mais ou menos o seguinte: a forma como Capilé fala do que fez pela cena independente é uma afronta a todos nós que estamos trabalhando diariamente para construir isso.

Lendo o relato de amigos eu fico cada dia que passa mais impressionada, mais chocada. Quando eu saquei que o lance era você fazer os trabalhos e colocarem o selo do FDE para sua autopromoção cai fora. Isso há mais de 6 anos atrás.

Em 2007, eu desabafei para um jornalista em um show nosso em São Paulo. Por incrível que pareça foi a primeira vez que não me senti sozinha. Uma outra pessoa me disse “nossa, então você é chamada para tocar num esquema que tem dinheiro público, edital, patrocínio, entrada e não recebe?” Bom, por incrível que pareça esta era uma prática até comum entre os festivais pelo Brasil. A Rolling Stone me ligou e fizeram uma entrevista comigo. Eu respondi.

Num outro dia fui para a aula e comecei a receber ligações de forma muito insistente de fora de Brasília. Sai da sala até meio assustada. Atendi e me falaram o seguinte: se essa entrevista for publicada você pode considerar sua banda enterrada. Enfim, liguei pro Pil (N.E.: Companheiro de banda e cônjuge) e resolvemos conversar com o Pablo Miyazawa que  foi super gentil e super compreendeu. Minha entrevista não foi publicada, mas outras pessoas começaram a dar depoimentos anonimamente e rolou alguma repercussão. Os festivais começaram a pagar caches nesta época. Fiquei com um bom sentimento no fim das contas e resolvi encerrar meu mimimi por ali.

Realmente não queria escrever sobre isso e me aborrecer novamente. Escrevo porque meus amigos acham que pode colaborar a melhorar a discussão em torno de toda essa história. Muita gente se sente trapaceada como eu me senti por algum tempo.

Àqueles que ainda pretendem entrar no ramo, não desistam! Tem muita gente boa produzindo, abrindo casas, pagando direitinho. Tem muito artista novo, o que é bom… oxigena! É isso aê… vamos discutir e melhorar. Depois, bola pra frente, galera! ,)








*Fernanda Popsonic é vocalista e baixista da banda Lucy and the Popsonics

25/06/2013

Meia-Dúzia: Mani (FESTA) ções e afins

Todo mundo, granadinha pro alto. E vai rolar a festa, vai rolar!
Não, este aqui não é mais um post de boas maneiras e todo blábláblá de chorume via redes sociais. Na verdade, trata-se de uma orientação sobre boas maneiras revolucionárias e confesso que a maioria delas eu já tinha sem sequer saber se eram boas, enquanto outras tão cretinas que não sei como foram se meter neste texto.

Quem é que decide, afinal, quais as boas ou más maneiras? Existem tantos "guias" nesse sentido que nunca se sabe se as maneiras que um ensina são as mesmas do outro. Isso pode causar confusão, pois a gente pode tomar atitudes que leu justamente pra pessoas que leram outras atitudes.

A zoeira e o direito constitucional andam lado a lado. E pra você, que não acompanhou os últimos acontecimentos nesse Brasil de meu Deus, se liga aí, que é hora do resumão: A manifestação contra tarifa de ônibus que virou algo maior que ninguém sabe e provocou uma Constituinte sem revolução. E é aí que entra o meia dúzia desta semana: Musicas que embalam as revoltas.

Num pais onde todo mundo sabe de tudo e o Google explica, tudo seria uma questão de convenção — porque basta se convencionar pra todo mundo se convencer. Um cavalheiro jamais mandaria um ramo de flores para a sua amada: mandaria uma bomba-relógio, que seria muito mais divertido —- depois de estourada a bomba, ela ainda ficaria com o relógio. Uma campanha bem orientada decidiria sobre as "boas maneiras" de cada ano, pra evitar as dúvidas. Assim como está, as boas maneiras se comparam à nossa ortografia: cada um escreve como sabe e ninguém se entende. É muito desconcertante fazer uma gentileza com "f" pra quem ainda acredita no "ph".


6 - TIRIRICA -Estou no Poder

Na primeira da lista, o palhaço dos palhaços e eterno Florentina. Com uma crítica aguçada, serviu de tema ( e inspiração) para outros palhaços como Patati/Patatá: Aguarde 2014 e me cobrem.





5 - LATINO - O Gigante 

O showman que não perde uma oportunidade de se dar bem às custas da desgraça alheia não perdeu a oportunidade. (Eu sou apenas um rapaz) Latino usou e abusou da sua famosa regularidade, produziu uma obra profunda, que traz uma agradável sensação de bem-estar que potencializa o raciocínio do ouvinte e o leva a um maior conhecimento de si mesmo e de seu país. Em certos casos, o efeito desta obra-prima é tão eficaz, que essa sensação de bem-estar pode se estender a outras pessoas que estejam próximas. Ou não.





4 - FALCÃO - A Besteira é a base da Sabedoria

Já o homem por traz da parafernalha colorida (com o telefone incluso!) ousou em dizer que a besteira é a base da sabedoria. E faço minhas, as palavras do nobre cavalheiro: “Já está provado por a + b que a + b não prova nada, e eu, pessoalmente, já mostrei que é tudo a mesma coisa”.
  
 




3- CAPITAL INICIAL -Viva a Revolução

Estamos num blog onde o tema é Brasilia. Claro que não poderia faltar um representante do quadradinho goiano. Dinho OURO Preto e sua trupe entraram na onda de gritar palavra de ordem (sem cair do palco, evidentemente!) e criaram o clichê de colocar “motorista,olha o poste” no chinelo.





2 - RAUL SEIXAS - Aluga-se

Antes de mais nada, é necessário que a pessoa conheça cada vez mais seu país, pra ir se amoldando ao próprio temperamento atual: até o chato pode protestar o bem, desde que aprenda a se aturar. O conceito de felicidade vai mudando dentro de nós, à medida que o tempo vai passando: o homem só consegue ser completamente feliz quando não se preocupa mais com isso. Se nada der certo, Aluga e vaza.




1 - GERALDO VANDRÉ - Pra não dizer que não falei das flores

Profissão ingrata é a do cronista, tem de dar certo logo na primeira. O médico receita remédios, depois recorre à operação, depois apela pra novos remédios, depois faz novas operações, depois consulta outros médicos, depois decide recomendar um especialista. O advogado também tem seus "depois", sabe que está metido numa guerra de inteligência e não de justiça: se perder, apela pra segunda instância, se perder de novo apela pro Tribunal Superior e, ainda assim, consegue um descontinho na pena do seu constituinte, que, mesmo condenado, tem a seu favor o indulto e a liberdade condicional. O cronista mete-se numa enrascada e não tem mais saída: ou todo mundo acha bom e ri, ou não ri e acha péssimo. Não é como o cantor, que faz sucesso com uma música e passa o resto da vida cantando a mesma.






 Pra não dizer que não falei das flores, lá vai: FLORES!

29/04/2013

Meia Dúzia: (per) Versões Brasileiras

Traduttore, traditore. Tradutor, traidor. A frase não deve ser muito mais nova do que o próprio ofício de tradutor. Imagine em tempos longínquos, qual não era a dimensão dos poderes de um. Enfim, qualquer pessoa que tenha brincado de telefone sem fio pode perceber o quão difícil é a manutenção da integridade de uma informação repassada na mesma língua. Imagine então as obras originadas de traduções de traduções de traduções. Há uma grande probabilidade de que abriguem um conteúdo completamente distinto da matriz, do texto original.

Na história da música pop brasileira há uma tradição curiosa e, até onde pude observar, exclusiva. Já que a tradução por si já é uma traição, por que não esculhambar tudo de vez e escrever outra letra completamente diferente da original? E não se trata de paródia, mas de uma presepada genuinamente brazuca, um meio de se burlar o pagamento dos direitos autorais das canções, etc.... Prática cujo nascimento até se confunde com o do próprio rock nacional. Hits seminais como Biquini de Bolinha Amarelinha ou Splish Splash foram alguns dos desbravadores desse caminho das versões infiéis.

Recentemente, uma constrangedora versão que o Latino fez para Gangnam Style, do coreano Psy, bateu recordes de dislikes no Youtube. Mas, não se engane, algumas das piores versões já gravadas foram executadas por artistas bem mais conceituados que o ex-marido da Kelly Key. O R64 traz a seguir 6 das piores “versões” brasileiras de sucessos internacionais, inaugurando a seção Meia Dúzia. Acompanhe.


6. Roberto Carlos - Splish Splash (Splish splash, de Bob Darin)

O rei Roberto Carlos está na comissão de frente da lista. Alguém aí já ouviu um beijo que tenha emitido tais ruídos? Chuac, smack, tudo bem, ainda vai. Mas, splish splash? Isso parece mais uma troca de bofetadas que qualquer outra coisa. Na letra verdadeira, o personagem está tomando banho....








5. Kiko Zambianchi - Hey Jude (Hey Jude, dos Beatles)

Paul McCartney escreveu essa letra para consolar o filho de John Lennon, Julian, e sua mãe, após a separação. Tio Paul batia a real pro moleque. Hey, Jude, don't make it bad. Take a sad song and make it better, um conselho que apontava caminhos. Não fique mal, faça da dor sua inspiração e siga. Já o Kiko Zambianchi faz o estilo ex-hippie frase-feita de auto-ajuda, e aconselha o garoto a ignorar a realidade e se alienar completamente: Hey Jude não fique assim. Sabe a vida ainda é bela. Esqueça de tudo que aconteceu. Amanhã será um novo dia. De embrulhar o estômago. Nanana é o diabo.








4. Renato e seus Blue Caps - Feche os Olhos (All my loving, também dos Beatles)

Essa canção de amor dos Beatles fala sobre saudade. A letra começa com um beijo de despedida de alguém que teve que partir, mas que escreverá todos os dias para a amada. Close your eyes and I'll kiss you. Tomorrow I'll miss you. Remember I'll always be true. And then while I'm away. I'll write home everyday. And I'll send all my loving to you. Mas, Renato e seus Blue Caps resolveram transformar o protagonista em um bobalhão infantilóide, inseguro, obsessivo e com complexo de inferioridade. Feche os olhos e sinta um beijinho agora. De alguém que não vive sem você. Que não pensa e não gosta de outra menina, e tem medo de lhe perder. Podre.









3. Leo Jaime - Solange (So lonely, do Police)

Nos anos 80, a coisa tava realmente feia. E um dos grandes momentos vergonha alheia foi essa infame versão da música do Police, rebatizada de Solange por Leo Jaime. Solange, Solange, brada o refrão.







2. Juba & Lula - Surf é o que eu sei (Surfin’ USA, dos Beach Boys)

Mas, se fizeram bobagens nas versões acima, o que nossos replicantes brazucas conseguiriam fazer diante de uma canção originalmente bobinha como Surfin’ USA? A música eternizada pelos Beach Boys foi transformada em Surf é o que eu sei (aaargh) e regravada por Juba & Lula, personagens de Kadu Moliterno e André de Biasi que protagonizavam o seriado Armação Ilimitada, espécie de Malhação dos anos 1980s. Medonha.







1. Nenhum de Nós - Astronauta de Mármore (Starman, do David Bowie)

Pra encerrar com estilo. Pobre David Bowie, viu seu homem das estrelas ser transformado em um reles astronauta de mármore pela banda Nenhum de Nós. Além disso, nossa campeã merece uma menção honrosa por conseguir metamorfosear os versos There’s a starman waiting in the Sky. He'd like to come and meet us, but he thinks he'd blow our minds” no emblemático refrão Sempre estar lá e ver ele voltar. Não era mais o mesmo, mas estava em seu lugar. Putz....



23/04/2013

A década que matou o rock brasileiro

Os últimos grandes hits do rock brasileiro foram Mulher de Fases e Ana Júlia. Músicas que ultrapassaram e muito a barreira das AM, FM e dos elevadores, no Brasil inteiro. Isso foi em 1999, no século passado.

Vários fatores contribuíram para isso. As novidades digitais, ou seja, as inúmeras plataformas e formatos que subverteram de forma inédita o nosso acesso à música e quebraram a perna das gravadoras. Empresas cujos executivos, acomodados em suas fórmulas viciadas, somente se deram conta de sua incompetência quando o novo mundo já havia chegado, metendo o pé na porta.

Banda de rock, que sempre foi um investimento de risco, se tornou inviável. Mas, o que muita gente se esquece é de que eram essas mesmas corporações que faziam o trabalho sujo, de enfiar a mão e os ouvidos na lama, o da triagem.

Paralelamente a isso, começava a tomar forma a rede de festivais independentes, a finada Abrafin. Ora, que maravilha! As malditas gravadoras capitalistas imundas foram finalmente derrotadas. Prenunciava-se, inclusive, o fim do inescrupuloso jabá nas rádios. Um marco na história da música brasileira. Só que não.

Estes festivais, custeados com dinheiro público, tomaram o lugar das gravadoras, que investiam seu próprio dinheiro. A triagem, que antes tinha que buscar algo com potencial para gerar retorno financeiro e compensar o investimento, passou para a mão das curadorias dos festivais. Função remunerada que era rateada entre os próprios produtores da patota, um dava a curadoria pro outro. O público passou a ser mero detalhe dentro de uma alardeada Cadeia Produtiva. Surgia o indie estatal.

O jabá? Sumiu nada. Tomou uma nova forma, ainda mais mesquinha, mais amadora. Era o jabá da conveniência. Os festivais viraram as vitrines para as bandas dos produtores associados da entidade, de amigos de produtores, de irmão de produtor, do amigo do estagiário que vai cobrir o festival pelo jornal X. Tudo isso com muita empada, kibe, cerveja liberada pra todo mundo nos backstages. A festa era mais animada nos bastidores que na frente do palco. Pura alegria, todo mundo bêbado e feliz. O Atacadão das Gravadoras fora substituído pelo Feirão Indie e nós levamos as tomatadas na cabeça. Festivais que deveriam ser meio, passam a ser fim.

E esse pessoal recebia antecipadamente os cachês de produtor ou de curador, não precisavam nem encher seus festivais. Um empreendedorismo risco zero. Pegavam o dinheiro público e garantiam sua parte antes mesmo de vender ingresso. Sem compromisso com nada além de si mesmos, uma infinidade de bandas e artistas ruins, arrogantes, presunçosos, foram repetidamente superestimados pela rede de comunicação cooptada, espécie de puxadinho das editorias de cultura de alguns jornais.

Nessa vala comum, da qualidade duvidosa e da completa falta de critérios, bandas realmente diferenciadas como Charme Chulo ou Superguidis acabaram não recebendo o devido reconhecimento. Outras, como Los Porongas, Móveis Coloniais de Acaju e Lucy and the Popsonics conseguiram pavimentar um caminho próprio, paralelo ao da estrutura indie oficial. E a principal banda do período foi o Autoramas, self-made e independente até os ossos.

Mas, foi pouco. O prejuízo causado pela confraria da boca-livre, ou seja, os produtores e jornalistas agregados da finada Abrafin (e, posteriormente, do Fora do Eixo), foi enorme, irremediável.

Esse bando conseguiu quebrar o vínculo afetivo de toda uma geração com um gênero musical. Aqueles últimos hits nacionais, do Raimundos e Los Hermanos, tem quase 15 anos de idade. Se hoje, esse tal de sertanejo universitário está na boca da garotada, 95% da culpa foi dessa estrutura viciada, incompetente e cega pela própria arrogância. Que conseguiu reunir em si, o que existe de pior no sindicalismo e o que há de mais podre na política. E mais, estão aí até hoje. Mais fracos, irrelevantes, mas ainda estão comendo quietos, farejando oportunidades.

Apesar disso ou até por isso, não deixa de ser interessante observar que a banda que vem lotando seus shows Brasil afora, com público formado em esmagadora maioria pela molecada, seja o Raimundos. Shows cheios, musicas cantadas em coro pela plateia, do começo ao fim. Provavelmente, será a última a consegui-lo. O rock nacional está clinicamente morto.

31/03/2013

Discoteca Nacional: Loucos são os outros, até duas vezes

Como todo bom gaúcho, além do churrasco e chimarrão, a música regionalista sempre foi um dos grandes trunfos deste que vos escreve. Seja por influência paterna ou ou só pelo simples fato de cantarolar
"Deu pra ti/baixo astral/vou pra Porto Alegre, tchau" (daquela dupla que todo mundo dizia ser meus pais, Kleiton & Kledir) e matar a saudade da capital riograndense.


Fato é que, pela primeira vez na história deste país (eu sei que você já ouviu isso um milhão de vezes, enfim!), a produção do rock gaúcho apresentou suas influências locais, regionais e internacionais reunidas em um só bendito long play, sabiamente chamado de Coisa de Louco II.

O álbum teve uma repercussão muito positiva e saiu de catálogo tão logo entrou, tornou-se raridade muito por conta da estrutura do selo Banguela, que naquele ano, 1995, mais se preocupava em lançar bandas interessantes do que trabalhar os lançamentos, muitos ficaram apenas na tiragem inicial. Isto para a Graforréia Xilarmônica foi bastante prejudicial, afinal a banda já era um nome conhecido no Rio Grande do Sul e mesmo no underground brasileiro. O projeto gráfico de “Coisa de Louco II” é bastante trabalhado e traz fotos da banda, todas as letras e ficha técnica.

É hora de descobrir os encantos que essa mistura da chinelagem adquirida com supra-sumo concentrado e aperfeiçoado disseminada psicodelicamente em papeletes de jovem guarda underground cuidadosamente mesclada com música regionalista gaúcha e pitadas de rock'n roll gringo dos anos sessenta.

Com 18 faixas, a banda que hoje faz cover de si mesma trouxe uma experiência única na vida deste jovem mequetrefe:  um disco que não cansa de tocar na minha vitrola. Só fico preocupado com o fato de, se
ele realmente gastar, como vou encontrar outro, já que está esgotado nas lojas? Acho que preciso me agilizar e providenciar uma cópia de segurança e uma outra em arquivos .flac/mp3 e o caramba por garantia.

Formada por Frank Jorge, Marcelo Birck e Alexandre "Ograndi" Birck em 1987, A Graforréia Xilarmônica tornou-se cult em Porto Alegre em função de uma fita demo lançada em 1988 chamada “Com Amor, Muito Carinho”. As guitarras cacarejadas de Carlo Pianta dão o charme necessário para se fazer a musica atonal também proposta pelo grupo.

Eis que chega, "Literatura Brasileira". Já de cara, Mutley faça alguma coisa e Slave to Love de Bryan Ferry se misturam numa crítica ferrenha aos bananas que escrevem livros de auto-ajuda e afins e tem cadeira cativa na Acadêmia de Letras Brasileira (Pasmem! Até o Sarney está lá! Isso explica muita coisa!).  Ok. Depois de raios duplos e triplos, logo começam as linhas de baixo de "Bagaceiro Chinelão", a narrativa
de um pedinte e a burguesia portoalegrense judaico-mão-de-vaca.  O hit "Você foi Embora", que acabou virando videoclip e tocou bastante na MTV Brasil, coisa meio que miraculosa para uma banda como a Graforréia.

As desventuras da vida a dois e as aflições amorosas como as do Sofrimentos do Jovem Werther de Goethe, estão presentes em todas as partes do disco, sejam elas "Tive Teu nome", "Grito de Tarzan", "Empregada"( você ainda vai repetir: "“Raú Ped'i Lara” pelos alto-falantes da cidade!) , "Minha Picardia", "Patê", "Denis", "Nunca diga" e "Se arrependimento matasse" e "Se você não quis".

Até os Bitous foram lembrados em uma das mais engraçadas sagas adolescentes já presenciadas: Twist é a prova-viva da depressão juvenil bem humorada. Falando em Fab-Four, mais especificamente em George Harrison, a enigmática "Hare" traz o clima intimista ao disco.

Benga velha Companheira é o começo de uma trilogia proposta pela gurizada que conta a fatídica história de um  bon-vivant em suas andanças pelo mundo.

Parem as máquinas. É hora do segundo hino oficial da república riograndense. Ah! parem com essa onda de bairrismo e sejam agraciados com o mezzo milonga mezzo tradicionalismo escancaradamente cômico
traduzido em versos como " O meu destino é Woodstock mas eu chego". Simplesmente sensacional. E viciante! Amigo Punk.

Para fechar com chave de ouro, os tchês fazem um convite um tanto perigoso em tempos de assaltos: (Vamos para o) "Rancho" traz o clima gostoso do interior. O único problema é que além de ti como convidado, tu tem a Xuxa e o Bonamigo na mesma festa. Seja bom ou ruim,  pelo menos tem pizza e limonada! Sim oh! Yes! Meu amor,coração!

A curta discografia da Graforréia Xilarmônica é uma ofensa a criatividade da banda e a boa discografia do rock nacional. “Coisa de Louco II” é um álbum imperdível, pelo menos não tem firulas e nem virtuoses. É simples e direto como todo disco deveria ser e como a gente sempre quis que fosse.

A curiosidade matou o gato!

31/01/2013

Marchetteiras: 25 anos de Psicoacústica

por Paulo Marchetti

Em 2013, completam-se 25 anos de lançamento do maravilhoso, estupendo, inacreditável e importantíssimo Psicoacústica, terceiro disco do Ira!, lançado em 11 de maio de 1988.

Psicoacústica é daqueles discos que serão eternamente atuais. Até a capa é em 3D!!!!! Eu sou bastante suspeito para falar desse disco que é cheio de detalhes curiosos e que é um dos responsáveis pela mudança de comportamento (!!!) no cenário musical da época. 


Infelizmente o Ira! acabou, porque Psicoacústica poderia muito bem ser homenageado em um show com o disco inteiro sendo executado....

Para entender um pouco do contexto da época de seu lançamento, leia também o post do blog Sete doses de cachaça, Quando Tudo Mudou.

Nessa singela homenagem, resgato duas críticas do disco publicadas na época de seu lançamento: uma da revista Veja e outra da Folha de São Paulo de pré-lançamento. Sugiro também ler a reportagem e crítica escrita por Thales da Menezes na Folha de São Paulo, caderno Ilustrada, do dia 11-05-1988. É só acessar o acervo digital da FSP.
Músicas
1 – Rubro Zorro
2 – Manhãs de Domingo
3 – Poder, Sorriso, Fama
4 – Receita Para Se Fazer Um Herói
5 – Pegue Essa Arma
6 – Farto do Rock’n’Roll
7 – Advogado do Diabo
8 – Mesmo Distante

Drops Efemérides do Rock Brasileiro: Nesse mesmo 11 de maio de 1988, foi lançado Trashland (EMI), segundo disco da Mercenárias, produzido por Edgard Scandurra.

Revista Veja – 25/05/1988 (edição 1029, página 127)

Caixa de Música

Bons LPs de Maria Bethânia, Cazuza e Ira!

Psicoacústica, Ira! – Em seu terceiro LP, o quarteto paulista Ira! Consegue a proeza de se manter original no rock brasileiro. O segredo do grupo, além da atuação competente dos instrumentistas, é buscar referências num escaninho da história da música pop hoje esquecido por todos os grupos – o rock inglês do comecinho dos anos 60, anterior a explosão dos Beatles, dos cabelos longos e do psicodelismo. Esse rock era executado pelos mods, rapazes até certo ponto bem-comportados, que se vestiam no rigor da moda e carregavam suas músicas de ironia.

Em Psicoacústica, o clima das letras e pesado – os versos falam de crimes, tiros pelas costas, castigo, farsas e perigo. Em contrapartida, a maioria das canções tem melodia fáceis e alegres. Esse contraste empresta as faixas Poder, Sorriso, Fama e Receita Para Se Fazer Um Herói um clima de dubiedadee de sarcasmo que dá ao grupo a sua marca. Psisicoacústica, de maneira coerente com as influências do grupo, recupera também um brincadeira típica do final dos anos 50 – o dos óculos em 3D. Cada disco vem acompanhado de um par deles, necessário para se decifrar o desenho tridimensional da capa e do selo do LP.

Folha de São Paulo, caderno Ilustrada, 04/11/1988
Da reportagem local

Psicoacústica é uma coisa sutil: trata-se de aproveitar um disparo no começo da fita ou um resto de canção que ficou registrado em baixo da versão final. Pode ser um acidente, um canal que não foi usado e saiu na mixagem final, ou “a rodada de lâmpada acidental”. A partir das próximas semanas, “Psicoacústica” vai ser mesmo o nome do terceiro LP do grupo Ira! Que, segundo o guitarrista Edgar (sic) Scandurra, está pronto sem “ nenhuma faixa com apelo pop muito forte”.



O repertório total é composto por oito canções. “Pegue essa arma” já está tocando nas FMs alternativas. Edgar (sic), 26, explica que “Psicoacústica” foi uma palavra inventada pelos quatro integrantes do grupo depois das gravações. “A gente colocou detalhes que não iriam sair nos arranjos iniciais e quase todos eram incidentais”.

Como a introdução de “Fato do Rock’n’Roll” (sic): o som de um ricochete é na verdade o ruído da fita quando alguém apertou o botão “play”. Ou então o final de “Manhãs de Domingo”: a música acaba utilizando um trecho da primeiragravação que fizemos. A gente tinha gravado a versão final em cima da anterior e, quando fomos ouvir, tinha um trecho final ainda registrado e ele era legal. Então unimos”, explicou Scandurra.

Esses detalhes “tão pequenos” de “Psicoacústica” deixam Edgar (sic) ansioso com o novo trabalho. É o primeiro produzido só pela banda, sem os toques de Peninha Schmidt ou Peninha. “Ficamos mais livres”, disse os guitarrista. Ele disse que perdeu a fita com o registro final e garante estar “com saudade de ouvir de novo”. (LB)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Related Posts with Thumbnails