por Daniel Cariello*
De vez em quando surge uma banda em que todo mundo aposta. É ouvida, comentada, os shows são legais e elogiados. Mas, por alguma tramóia do destino, acaba não dando certo. Os
anos 80 produziram
pelo menos duas clássicas na capital: o
Escola de Escândalo e o
Tonton Macoute.
A história da
primeira é bem conhecida por quem acompanha o
rock candango. Só pra dar uma situada básica, vale dizer que em
1987 o grupo assinou com a
EMI e gravou uma demo produzida pelo plebeu
Philippe Seabra. Mas, por motivos diversos, nunca conseguiram lançar o esperado disco de estréia. E o grupo acabou antes do fim da década.
O
Tonton Macoute é o outro da safra. O nome foi roubado da polícia repressora do
Haiti, no governo
Papa Doc, e significa
bicho papão, em francês. A formação inicial tinha o vocalista/letrista Cau, a tecladista/backin´ vocal Cláudia, o trompetista Flama e o baixista Maurício. Cadê a guitarra? Não tinha. O quarteto era completado por uma (hoje) arcaica bateria eletrônica.
Drum’n’bass nos anos 80? Hein?
A primeira demo mostrava que, em épocas de
Legião,
Capital e
Plebe no auge, tinha gente na cidade disposta a fazer música diferente. Completamente diferente. O som eletrônico tinha vocais em português, inglês e alemão, muito mais recitados do que cantados, teclados inspirados por grupos como
Ranaissance, baixo preciso e o incrível trompete. Isso tudo fazia da banda a única do gênero. Aliás, que gênero? Não dava pra classificar.
E muito antes do
Rotomusic de Liquidificapum, o 1º disco do
Pato Fu, as programações da
bateria Roland do
Tonton já chamavam a atenção. Animais, uma das primeiras composições, era praticamente um drum´n´bass. E
A Pele era algo como um
acid jazz. Isso em
1986.
A fita demo do grupo foi parar nas mãos da
Fluminense FM, uma conhecida rádio de vanguarda do Rio. Pra vocês terem uma idéia, foi a mesma rádio que tocou
Legião Urbana antes de todo mundo. As músicas
Electric Light e
A Pele ficaram, respectivamente, em 1º e 2º lugar durante um bom tempo.
Quando a banda começava a decolar, o trompetista Flama decidiu tentar vôos maiores. Saiu pra tocar em uma orquestra no
Rio de Janeiro. E logo depois o baixista Maurício saiu também.
Tempo de reformulações
Entra Sérgio Couto, percussionista do
Obina Shock, histórico grupo de Brasília que estourou nacionalmente com a música Vida. Abre parênteses. A estréia do
Obina em vinil, com músicas em português, francês, inglês e dialetos africanos,
influenciou diretamente os
Paralamas a compor o disco
Selvagem?. Fecha parênteses. Entra também o baixista Dedé, egresso da banda
Fama. Volta Maurício.
Com novos membros e dois baixistas, um tocando eventual guitarra, o agora quinteto buscou um caminho um pouco mais pop. Mas isso não significou perda de qualidade. Mesmo sem Flama, o som continuava original. A segunda demo, com músicas como
A Bruxinha e
Mr. DeJohnette, uma homenagem ao baterista de jazz
Jack DeJohnette, era tão boa quanto a primeira.
Mas
o tempo foi passando e as expectativas de gravação de um disco foram por
água abaixo quando
Collor assumiu a presidência e cortou as verbas da
cultura. Um
tempo de trevas para os
artistas brasileiros. E os primeiros que dançaram foram os que não se enquadravam no duvidoso gosto do ex-presidente.
Sem perspectivas, o grupo
acabou. Cláudia e Sérgio Couto casaram-se e foram pra
Varsóvia. Cau se mandou pro Rio. E assim terminou uma das mais criativas e originais bandas da história da cidade, avançada pra época e até hoje atual. Duvida? Baixe agora a copilação das duas demos da banda e tire suas próprias conclusões.
(versão completa, atualizada em 4/12)
*Daniel Cariello edita a revista Brazuca e o blog Chéri à Paris.
Tonton Macoute (Demos, 1986-1987)
1. Intro
2. Electric night
3. A pele
4. O circo I
5. A casa
6. O sino
7. Ruas I
8. Animais
9. O circo II
10. Mr. deJohnette
11. A bruxinha
12. Vigília
13. Ruídos
14. Ruas II