23/04/2013

A década que matou o rock brasileiro

Os últimos grandes hits do rock brasileiro foram Mulher de Fases e Ana Júlia. Músicas que ultrapassaram e muito a barreira das AM, FM e dos elevadores, no Brasil inteiro. Isso foi em 1999, no século passado.

Vários fatores contribuíram para isso. As novidades digitais, ou seja, as inúmeras plataformas e formatos que subverteram de forma inédita o nosso acesso à música e quebraram a perna das gravadoras. Empresas cujos executivos, acomodados em suas fórmulas viciadas, somente se deram conta de sua incompetência quando o novo mundo já havia chegado, metendo o pé na porta.

Banda de rock, que sempre foi um investimento de risco, se tornou inviável. Mas, o que muita gente se esquece é de que eram essas mesmas corporações que faziam o trabalho sujo, de enfiar a mão e os ouvidos na lama, o da triagem.

Paralelamente a isso, começava a tomar forma a rede de festivais independentes, a finada Abrafin. Ora, que maravilha! As malditas gravadoras capitalistas imundas foram finalmente derrotadas. Prenunciava-se, inclusive, o fim do inescrupuloso jabá nas rádios. Um marco na história da música brasileira. Só que não.

Estes festivais, custeados com dinheiro público, tomaram o lugar das gravadoras, que investiam seu próprio dinheiro. A triagem, que antes tinha que buscar algo com potencial para gerar retorno financeiro e compensar o investimento, passou para a mão das curadorias dos festivais. Função remunerada que era rateada entre os próprios produtores da patota, um dava a curadoria pro outro. O público passou a ser mero detalhe dentro de uma alardeada Cadeia Produtiva. Surgia o indie estatal.

O jabá? Sumiu nada. Tomou uma nova forma, ainda mais mesquinha, mais amadora. Era o jabá da conveniência. Os festivais viraram as vitrines para as bandas dos produtores associados da entidade, de amigos de produtores, de irmão de produtor, do amigo do estagiário que vai cobrir o festival pelo jornal X. Tudo isso com muita empada, kibe, cerveja liberada pra todo mundo nos backstages. A festa era mais animada nos bastidores que na frente do palco. Pura alegria, todo mundo bêbado e feliz. O Atacadão das Gravadoras fora substituído pelo Feirão Indie e nós levamos as tomatadas na cabeça. Festivais que deveriam ser meio, passam a ser fim.

E esse pessoal recebia antecipadamente os cachês de produtor ou de curador, não precisavam nem encher seus festivais. Um empreendedorismo risco zero. Pegavam o dinheiro público e garantiam sua parte antes mesmo de vender ingresso. Sem compromisso com nada além de si mesmos, uma infinidade de bandas e artistas ruins, arrogantes, presunçosos, foram repetidamente superestimados pela rede de comunicação cooptada, espécie de puxadinho das editorias de cultura de alguns jornais.

Nessa vala comum, da qualidade duvidosa e da completa falta de critérios, bandas realmente diferenciadas como Charme Chulo ou Superguidis acabaram não recebendo o devido reconhecimento. Outras, como Los Porongas, Móveis Coloniais de Acaju e Lucy and the Popsonics conseguiram pavimentar um caminho próprio, paralelo ao da estrutura indie oficial. E a principal banda do período foi o Autoramas, self-made e independente até os ossos.

Mas, foi pouco. O prejuízo causado pela confraria da boca-livre, ou seja, os produtores e jornalistas agregados da finada Abrafin (e, posteriormente, do Fora do Eixo), foi enorme, irremediável.

Esse bando conseguiu quebrar o vínculo afetivo de toda uma geração com um gênero musical. Aqueles últimos hits nacionais, do Raimundos e Los Hermanos, tem quase 15 anos de idade. Se hoje, esse tal de sertanejo universitário está na boca da garotada, 95% da culpa foi dessa estrutura viciada, incompetente e cega pela própria arrogância. Que conseguiu reunir em si, o que existe de pior no sindicalismo e o que há de mais podre na política. E mais, estão aí até hoje. Mais fracos, irrelevantes, mas ainda estão comendo quietos, farejando oportunidades.

Apesar disso ou até por isso, não deixa de ser interessante observar que a banda que vem lotando seus shows Brasil afora, com público formado em esmagadora maioria pela molecada, seja o Raimundos. Shows cheios, musicas cantadas em coro pela plateia, do começo ao fim. Provavelmente, será a última a consegui-lo. O rock nacional está clinicamente morto.

16 comentários:

  1. Ler este texto, serviu como um desabafo a minha alma, realmente concordo com tudo, vivemos em um momento frustrante do rock e muitos que poderiam mudar isso não se interessam pois já estão com o deles garantido, pra que ajudar então? Uma hora as pessoas vão querer tirar o poder das mãos dessa ''curadoria'' e vamos começar um colapso revolucionário que pode ser bom ou piorar tudo! O importante é não deixar como estar! hehe PARABÉNS!

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  2. Belo texto Renato, ótima interpretação.
    Israel Veloso

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    1. Valeu pela presença e pelo comentário, Israel.

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  3. É triste, mas vejo que o Rock Nacional parece realmente morto. Só vejo bandas de garagem ou bandas cover. Nenhuma com incentivo. Aparentemente o pessoal dito Indie perdeu a oportunidade de ficar independente de fato e desperdiçou tudo com a "curtição" e com o favorecimento de amigos.

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    1. Exatamente. Era muito poder pra pouco cérebro.

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  4. Discordo que o rock morreu. O rock produziu muita coisa e as rádios consumiram isso nos últimos tempos. Restart, Fresno, CPM22, Cine, NXZero são exemplos de bandas que estouraram nas rádios assim como Raimundos estourou e também encheram vários shows da mesma maneira. Bandas com som alternativo nunca foram populares a ponto de tocar nas rádios, a não ser durante modismos como foi o grunge. O que eu vejo é uma nova geração crescendo e escutando coisas que as antigas gerações não curtem, mas é rock, gostemos ou não.
    Tenho 37 anos e cresci escutando de tudo e caí de cabeça no thrash durante o início dos anos 90. Difícil demais escutar uma rádio que me agrade desde esse tempo. Não gosto desse movimento do rock atual, mas acredito que os modismos variam de tempos em tempos, assim como nos anos 80 tivemos sucesso de Blitz, Sempre Livre, Magazine, Metrô, RPM.... tudo rock, gostemos ou não! Além do som, rock é a atitude de uma juventude/geração. Finalizando, acho que está mais do que na hora dos consumidores pararem de reclamar do espaço aberto (rádio/TV) não estar agradando ao gosto individual, pois eles estão ali pra vender e não pra gerar cultura, e começarem a montar seus próprios mundos. Assim como as bandas estão reinventado o seu jeito de produzir (MySpace, Youtube, SoundCloud e inúmeros outros sites de vendas), os fãs de rock também devem criar o seu mundo (vai atrás!) de podcasts, streams, assinaturas de RSS, páginas de Facebook e por aí vai. O mais importante ainda é frequentar os shows e investir nas bandas locais (Croud Funding). Tem coisa boa em Brasília e no resto do Brasil, mas não fique esperando a Globo/MTV jogar na sua tela uma coisa que você goste. Nós estamos na geração do Google (mais democrático impossível)... então vamos usá-lo!

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    1. Opa, Fábio, beleza? Cara, claro que a morte definitiva não aconteceu (ainda), mas vou discordar de um ponto em sua colocação. Nem Fresno, CPM22, Restart ou NXZero conseguiram produzir um hit absoluto como os dois que citei.

      Não falo de hits de nicho, de segmento ou tribo. Mulher de Fases e Ana Julia foram as músicas mais executadas no ano de 1999, à frente dos axés, sertanejos e afins. Raimundos toca hoje para um público que sequer tem idade pra ter ido aos shows da formação original, isso se chama legado. Não consigo imaginar nenhuma dessas bandas que vc citou, fazendo isso daqui a 15 anos, por exemplo.

      Valeu pelo comentário!

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  5. Acho que essa leva de "produtores" que vivem só de dinheiro público também é um dos motivos de Brasília estar de fora do circuito de shows internacionais em comparação com outras cidades de mesmo porte. Eles recebem a grana independente do público que levam, quem vai querer se arriscar e investir. A culpa da falta de espaço adequado, que não é de toda mentirosa, fica como justificativa confortável.

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  6. Quando até a Plebe Rude grava CD com patrocínio da Petrobrás e do Governo Federal, é porque a coisa está feia, mesmo! Enquanto isso, atitudes de protesto vem do público mais conservador entre os fãs de bandas de rock: o público majoritariamente evangélico do rock gospel, cujas bandas quase sempre tem uma panela eclesiástica favorável. Os fãs do Oficina G3 vaiaram impiedosamente o deputado estadual Marcos Soares, filho do missionário RR Soares, durante uma apresentação da banda em 18 de fevereiro de 2011 no Rio de Janeiro.

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  7. O CD da Plebe Rude que citei antes é o de inéditas de 2006. E ainda tem o CD/DVD ao vivo de 2011, que conta com patrocínio do GDF e não lembrei de citar no texto acima.

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  8. Não tenho saudades nenhuma das gravadoras que oligopolizaram o Rádio com o Jabá. Muito menos da ABRAFIM - ótima descrição do sistema neste texto. Adorei a afirmação que o Rock Brasileiro está quase morto. É nestas horas que geralmente ele renasce de forma inesperada. Abraço!

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  9. Cara, esse texto me lembra aquele papo de músicos frustados que nunca conseguiram tocar em festivais e muito menos emplacar seu disco num selo legal (seja independente, ou não). Tá parecendo "blablabla" do Lobão, esse sim morreu ha duas décadas e esqueceram de enterrar. E para os órfãos das FM's e AM's que ficavam esperando o HIT da semana, e agora tem que se contentar com Gustavo Lima, Michel Telo ou Fernando e Sorocaba, só posso dizer uma coisa: BEM FEITO! Quem sempre foi alienado de corporações e concessões movidas a jabá (leia-se Rádio/TV), só deve esperar este fim trágico. E para os heróis que não morreram de overdose, e ainda continuam usuários de drogas pesadas (leia-se Rádio/TV e tudo que nos foi enfiado guëla abaixo dos anos 80 ate o momento) sugiro doses homeopáticas de pesquisas em outros meios de comunicação, como, web rádios, festivais independentes, feiras musicais, selos não ligados a grandes corporações e sejam felizes.

    O Rock não morreu! Apenas sofreu mutações (para o bem , ou para o mau? não sei), e se o clichê do comportamento humano pregava que as mudanças nunca eram bem vindas, a tecnologia veio para quebrar todo esse paradigma.

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    1. Cara, esse comentário me lembra aquele papo de produtores vigaristas, jornalistas cooptados, músicos pau-mandados ou qualquer outra mosca varejeira que nasce, cresce e vive nessa e dessa podridão. Valeu pela presença. (ps.: O antônimo de BEM é MAL, com L)

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  10. Obrigado pela correção ortográfica amigo, mas compreensão de texto tb é muito importante.
    No mais, blablabla blablabla bla....com L.

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Renato Nunes

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