“Pelamordedeus, tira isso, pela-mor-de-deus!”. Foi mais ou menos essa reação que Bonfá teve ao escutar o primeiro disco da Legião em minha casa. Ele e Buticão tinham ido lá para pegar minha irmã Mila para sair na noite. Era final de 1984 e estávamos num vácuo entre o término da produção de todo o disco (gravação, finalização, capa...) e seu lançamento. O que eu tinha em mãos era uma cópia de trabalho do disco. Era só uma capa branca com um adesivo da EMI. Acho que esse ‘disco prova’ era de Totoni e ficava rodando na mão do pessoal d
a Turma. Estava comigo e eu tinha bem umas cinco ou mais fitas para gravá-lo. Como em casa tinha dois tapes, coube a mim fazer várias gravações, e foi nesse momento de gravação que Bonfá chegou.Essa reação dele descreve bem o trauma que as gravações desse primeiro disco deixaram. Mas não foi privilégio a Legião Urbana gravar um primeiro disco conturbado. Ainda mais sendo na primeira metade dos anos 1980. Executivos das majors não acostumados com rock não podiam escutar nem de longe as palavras “guitarra distorcida” ou “liberdade total”. Não é difícil ver artistas que odeiam seus primeiros discos, e não é à toa. Para Legião foi mais. Ficou um asco, ojeriza, trauma e cansaço mental após a gravação.
No festi
val da ABO que rolou em meados de 1982, a banda ainda estava montando seu repertório e, em 1984, entrou em estúdio para gravar esse primeiro disco. Ou seja, tudo aconteceu muito rápido e de forma intensa. As demos da Legião eram ótimas e a evolução da banda era nítida a cada fita gravada. Existem versões demo de “Ainda é Cedo”, “Geração Coca-Cola”, “Petróleo do Futuro”, “Teorema”, “A Dança”, “O Reggae” e outras que são zilhões de vezes melhores do que as que foram gravadas no disco. Mais pesadas, mais punk rock. Agora mesmo escuto uma versão de “Ainda é Cedo” com um teclado em primeiro plano permeando a música inteira, com o instrumental longo, num clima Joy Division. Muito bom.Na época da entrada da banda na EMI, repertório já era vasto. Como todo fã sabe, o que chegou às mãos da EMI foi a famosa fita cassete do Trovador Solitário (lançada em CD oficial em 2008). Ali já tinham músicas que seriam aproveitadas pela Legião, mas nem de longe era Legião. A partir daí as confusões começaram. Fato é que a banda tinha um ótimo repertório – tirando algumas músicas, naquele momento ele era praticamente o que foi registrado no primeiro e terceiro discos.
Pra mim, as grandes surpresas são “Baader-Meinhof Blues” e “Por Enquanto”, duas que não conhecia. “Por Enquanto” causou boa surpresa no pessoal por se tratar de uma músic
a com bateria eletrônica, teclado e voz, algo inusitado para a época e para a Legião. Claro que houve decepção pela sonoridade do disco, ruim, produção muito fraca, mas isso não tirou o ânimo dos amigos, das outras bandas e da própria Legião.Não podemos esquecer que em 1985 os jovens ainda eram bastante politizados e engajados, e as letras de Renato Russo, além de sua postura nos shows e em entrevistas, caíram como uma luva naquele período. Mas além de escrever ótimos textos fortes, escrevia letras de amor como ninguém.
Durante as gravações que rolaram em 1984, muita confusão aconteceu. Troca de produtores, brigas com os
executivos, discussões em estúdio. Pára. Volta. Sai. Entra. Era o caos. A Legião queria uma coisa, para a gravadora era outra. Os produtores escolhidos não tinham a menor experiência. Chegou até ao ponto de questionar se o lançamento iria de fato acontecer. A banda conquistou algumas coisas, mas teve que abrir mão de outras.Ela foi uma das poucas de sua geração a não lançar um compacto antes do álbum completo. Bateram o pé: “era disco direto ou nada” e conseguiram. Ainda bem que a EMI acreditou.
Esse mês se completa 25 anos do lançamento do 1º disco da Legião Urbana. Não vi e nem li nada a respeito. Então essa é a minha humilde homenagem a essa obra que trouxe mais respeito ao rock brasileiro e que fez o panorama musical de Brasília mudar pra sempre. Exagero meu?
Que postagem massa, estreou bem o ano, meu chapa!
ResponderExcluirBom dia Marchetti !!! Começou o ano bem falando do disco da Legião ...Sobre os 25 anos do disco não li nada, mas sobre o relançamento de toda ( ou parte ) da discografia em vinil eu li.
ResponderExcluirEsse disco da Legião foi de extrema importância para o Rock de Brasília. Apesar da má qualidade da mixagem, já dava para sentir o amadurecimento da banda.
ResponderExcluirPaulo Maciel
Não é exagêro seu, M. È descaso da imprensa. E digo mais. Talvez este disco tenha ficado em segundo plano pelo megafestival Rock in Rio. E agora são 25 anos do mesmo festival...
ResponderExcluirConcordo com o Zeca, se a imprensa musical internacional fosse como a nossa, hoje ninguém saberia o que é Sgt Peppers ou Nevermind...
ResponderExcluirCadê o Mel da Terra na listagem ao lado?
ResponderExcluirCadê o Myspace da banda?
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